Comunhão Cristã
Por Peter Amsterdam
[Christian Fellowship]
Quando pensamos em comunhão, a maioria de nós, cristãos, pensa em reunir-se com outros cristãos para um momento de oração, adoração, cânticos, leitura da Bíblia e/ou para ouvir uma pregação, conversar, comer e, de modo geral, interagir de maneira espiritualmente edificante e inspiradora. Embora essas atividades sejam uma parte importante da comunhão cristã, existe um conceito bíblico mais amplo de comunhão que nos proporciona uma compreensão mais profunda de seu significado.
Antes da criação do mundo, Deus existia como Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Por meio de Sua Palavra, Deus nos revelou que Ele é um único ser divino, uma única essência, com três distinções em Si mesmo, ou pessoas. O Pai é Deus, o Filho é Deus, e o Espírito Santo é Deus, mas existe um só Deus. Essa é uma crença fundamental da fé cristã. As três pessoas distintas — Pai, Filho e Espírito Santo — existem eternamente em uma relação interpessoal de amor.
Deus criou Adão e Eva à Sua própria imagem (Gênesis 1:27). Eles foram criados como seres relacionais (Gênesis 2:18) e, além do relacionamento que tinham um com o outro, desfrutavam de amizade e comunhão com Deus. Quando desobedeceram a Deus, sentiram vergonha e se esconderam dEle, e a comunhão que tinham com Ele foi rompida (Gênesis 3:8–10). Mas, apesar da desobediência de Adão e Eva e da consequente queda da humanidade, Deus providenciou um meio de restaurar a comunhão da humanidade com Ele por meio da vida e da morte de Jesus.
Com a morte e a ressurreição de Jesus, Deus mudou a natureza da convivência que a humanidade podia ter com Ele, fazendo morada permanente no coração daqueles que creem. Jesus ensinou aos discípulos: “Se alguém me ama, obedecerá à minha palavra. O meu Pai o amará, e nós viremos a ele e faremos nele morada” (João 14:23). A comunhão com Deus agora se concentra em nosso relacionamento pessoal com Jesus. “Naquele dia, compreenderão que eu estou no meu Pai, que vocês estão em mim e que eu estou em vocês. Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece é o que me ama. Aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me revelarei a ele” (João 14:20–21).
Relacionamento pessoal com Deus
O aspecto mais importante da comunhão cristã é nosso relacionamento pessoal, ou comunhão, com Deus por meio de Seu Filho, Jesus. O apóstolo João escreveu: “Proclamamos o que vimos e ouvimos para que vocês também tenham comunhão conosco. A nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho, Jesus Cristo” (1 João 1:3).
A forma de comunhão com Deus de que hoje desfrutamos por sermos crentes chegará a uma nova etapa, quando Deus passar a habitar com Seu povo.
“Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia dos céus, da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para o seu esposo. Ouvi uma alta voz que vinha do trono e dizia: — Eis que o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o Deus deles” (Apocalipse 21:2–3).
O relacionamento pessoal e a comunhão de cada crente com Deus é que tornam possível a comunhão cristã entre os crentes; esse relacionamento com Deus é o alicerce da comunhão entre os cristãos. Primeiro, Deus restaura a comunhão conosco por meio do sofrimento e da morte de Jesus por nós; e, à medida que vivemos em conformidade com Sua Palavra, torna-se possível a comunhão com outros crentes. Como João escreveu: “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros” (1 João 1:7).
Compartilhando a vida de fé com outros crentes
Além da nossa comunhão com Deus, outro aspecto da comunhão consiste em participarmos, de várias maneiras, da vida de fé. O apóstolo Paulo descreve o relacionamento entre os crentes usando diversas palavras gregas, todas elas expressando a ideia de participação compartilhada. As principais palavras que ele usou pertenciam ao grupo de termos koinōnia. Elas expressavam a ideia de ter algo em comum com alguém e são traduzidas ao longo do Novo Testamento por palavras como comunhão, convívio, relacionamento próximo e participação. Ao longo do Novo Testamento, a ênfase desses termos recaía sobre a participação “em algo”, e não sobre a comunhão “com alguém”, como é mais comum no uso atual.
No texto bíblico, as palavras do grupo koinōnia são geralmente usadas no sentido de “ter parte em” ou “compartilhar o que se tem”. Em numerosos versículos, vemos a ideia de “ter parte em” expressa no sentido de participar ou ser parceiro — na obra de Deus, em Suas bênçãos e até nas dificuldades, como em : “[Vocês] suportaram muita luta e muito sofrimento. Algumas vezes, vocês foram expostos publicamente a insultos e tribulações; em outras ocasiões, fizeram-se solidários com os que assim foram tratados” (Hebreus 10:32–33); “Faço tudo isso por causa do evangelho, para ser coparticipante dele” (1 Coríntios 9:23).
Como podemos ver por esses e outros versículos, o sentido mais amplo de comunhão tem a ver com a participação em tudo o que o evangelho envolve: as bênçãos, as provações e tribulações, o consolo e a graça. Diz respeito também a participarmos juntos da natureza divina por meio da verdade que Deus nos deu, como escreveu o apóstolo Pedro em sua epístola: “O seu divino poder nos deu tudo de que necessitamos para a vida e a piedade, por meio do conhecimento daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude. Dessa maneira, ele nos deu as suas grandiosas e preciosas promessas, para que por elas vocês se tornassem participantes da natureza divina” (2 Pedro 1:3–4).
Embora a comunhão inclua reunir-se com outros cristãos, inclui também nossa participação no evangelho, atuando de alguma forma na evangelização. É trabalhar em parceria com Deus e com outros no cumprimento da Grande Comissão: compartilhar as boas-novas com todos, levando outros a conhecer Cristo e receber a salvação, e conduzindo-os ao discipulado (Mateus 28:18–20).
O apóstolo Paulo também usou koinōnia para descrever a unidade e a estreita ligação que devem existir entre os cristãos. Ao escrever sobre o debate em Jerusalém sobre se os gentios (não judeus) precisavam ser circuncidados para se tornarem cristãos, Paulo disse que Tiago, irmão de Jesus, e os apóstolos Pedro e João “estenderam a mão direita a mim e a Barnabé em sinal de comunhão” (Gálatas 2:9). Isso significava que, embora os apóstolos em Jerusalém continuassem seu ministério entre os judeus e o ministério de Paulo fosse diferente, voltado aos gentios, eles permaneciam unidos como irmãos na fé. Isso expressa a importância de cristãos de diferentes convicções manterem a unidade e a comunhão, mesmo quando envolvidos em ministérios diferentes ou sustentando compreensões teológicas distintas sobre pontos secundários de doutrina que não são centrais à fé cristã.
Considerada no contexto geral do significado do grego original, a comunhão cristã pode ser entendida como participação em tudo o que envolve a vida de fé. Ela inclui nossa interação com Deus e com outros cristãos, e nossos esforços conjuntos para cumprir a Grande Comissão e ser sal e luz para o mundo ao nosso redor e para a cultura do nosso tempo.
É claro que reunir-se com outros cristãos é uma parte importante da comunhão, mas ela vai além da convivência social. A comunhão espiritual inclui reunir-se com outros cristãos para compartilhar o que vai no coração e fortalecer a fé, encorajar uns aos outros a viver para Deus, conversar sobre problemas e soluções relacionados a como viver o discipulado, orar uns pelos outros e buscar orientação espiritual de irmãos ou irmãs. Também inclui ler as Escrituras, louvar, orar e adorar, e partilhar da Ceia do Senhor. Essa comunhão pode acontecer tanto em um grupo maior de cristãos quanto quando apenas dois ou três se reúnem em Seu nome (Mateus 18:20).
Como escreveu Donald Whitney: “Qualquer que seja o contexto social em que a comunhão aconteça, ela deve envolver partilhar da vida de Cristo tanto em palavras quanto em atos. Quando, estando juntos, vivemos como Cristo, encorajamos uns aos outros na vida cristã. Quando falamos como Cristo sobre assuntos espirituais, também estimulamos uns aos outros a crescer em piedade.” 1
A comunhão com outros cristãos exige que reservemos tempo para nos reunir, compartilhar nossa fé e nossa caminhada com o Senhor, adorar e orar juntos e fortalecer uns aos outros em Cristo. Como diz o autor de Hebreus: “Importemo-nos uns com os outros para nos incentivarmos ao amor e às boas obras. E não deixemos de nos reunir como igreja, segundo o costume de alguns, mas procuremos encorajar uns aos outros” (Hebreus 10:24–25).
A comunhão começa pelo cultivo de um relacionamento próximo com Deus e se estende à participação em diversos aspectos da nossa fé — compartilhando nossas bênçãos com os outros, atuando em parceria com outros crentes e reunindo-nos com eles. Se colocarmos essas coisas em prática, moldaremos nossa comunhão segundo as imagens usadas nas Escrituras para descrever a estreita ligação e união que existiam entre os membros da igreja primitiva. Eles eram chamados de “concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (Efésios 2:19), “família da fé” (Gálatas 6:10). Tendo sido adotados na família de Deus (Gálatas 4:4–6), deveriam ser guiados pelo amor, pela ternura, pela compaixão e pela humildade.
“Portanto, se há algum encorajamento em Cristo, se há algum consolo de amor, se há alguma comunhão no Espírito, se há alguma afeição e compaixão, completem a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só mente. Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a vocês mesmos, cuidando, cada um, não somente dos próprios interesses, mas também dos interesses dos outros” (Filipenses 2:1–4).
Nossa comunhão com Deus e com os outros é parte importante de viver nossa fé e produzir fruto, tanto em nossa própria vida quanto na vida dos outros. Como membros do corpo de Cristo, à medida que nos empenhamos em andar na luz, como Ele está na luz, teremos uma comunhão mais plena e profunda uns com os outros.
Publicado originalmente em junho de 2014. Adaptado e republicado em setembro de 2026.
1 Donald S. Whitney, Spiritual Disciplines for the Christian Life (Colorado Springs: Navpress, 1991), 241.
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