Calculando o custo
Por Peter Amsterdam
[Counting the Cost]
O capítulo 14 do Evangelho segundo Lucas contém algumas das declarações mais difíceis de Jesus a respeito do discipulado. Inclui a parábola do grande banquete (Lucas 14:16–24), que fala daqueles que colocam seus interesses pessoais acima do chamado para entrar em comunhão com Deus. O capítulo prossegue dizendo que grandes multidões acompanhavam Jesus, e foi a elas que Ele dirigiu estas palavras contundentes:
“Se alguém vem a mim e ama o pai, a mãe, a mulher, os filhos, os irmãos, as irmãs e até a própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo. Aquele que não carrega a sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:26–27).
Depois de dizer às pessoas que quem quisesse segui-Lo teria de fazer sacrifícios, Jesus contou duas parábolas curtas, porém poderosas, sobre o discipulado e a necessidade de refletir cuidadosamente sobre o custo de segui-lO.
A primeira parábola diz: “Qual de vocês, se quiser construir uma torre, não senta primeiro para calcular o preço e verificar se tem dinheiro suficiente para completá-la? Pois, se lançar o alicerce e não for capaz de terminá-la, todos os que a virem zombarão dele, dizendo: ‘Este homem começou a construir e não foi capaz de terminar’” (Lucas 14:28–30).
A expressão que começa com “qual de vocês” é uma pergunta retórica, cuja resposta esperada é “ninguém”. Jesus também usou perguntas retóricas semelhantes para introduzir outras parábolas, como a da ovelha perdida (Lucas 15:4). (Veja também Lucas 11:5–7; 17:7).
Nesta parábola, fica implícito que nenhuma pessoa sensata começaria uma edificação sem primeiro estimar o custo e verificar se teria dinheiro suficiente para concluí-la.
Em toda a Bíblia encontramos referências a torres. Algumas se referem a torres construídas para fins militares ou usadas em analogias militares, como: “O nome do Senhor é uma torre forte; os justos correm para ela e estão seguros” (Provérbios 18:10). Outras se referem a torres usadas para fins agrícolas (Isaías 5:2). Os agricultores usavam torres como alojamento, para guardar equipamentos e produtos, e como postos de observação para proteger suas plantações de ladrões e animais.1
No contexto desta parábola, Jesus provavelmente se referia a uma torre destinada a fins agrícolas. O proprietário da terra tem boas intenções. Construir uma torre lhe será benéfico. Além de poder proteger melhor sua lavoura ou seus animais de ladrões e predadores, ele também conquistará o respeito dos vizinhos pela benfeitoria. Entretanto, se for insensato a ponto de não estimar os custos nem calcular se dispõe de recursos suficientes para concluir sua torre, será considerado imprudente e se tornará alvo de zombaria.
Na cultura daquela época, a honra era muito importante, enquanto a vergonha devia ser evitada a todo custo. A consequência de um planejamento tão deficiente seria que todos os que vissem a construção inacabada zombariam do homem, apontando seu fracasso e sua insensatez. Ao dizer que o homem seria alvo de zombaria, ficava implícito que perderia seu prestígio e se tornaria motivo chacota na cidade.
Jesus estava desafiando aqueles que chamava a segui-lO a considerar o compromisso que estavam prestes a assumir e as implicações —avaliar o custo do discipulado e tomar uma decisão sábia e bem ponderada, em vez de assumir um compromisso que não conseguiriam cumprir.
A parábola que vem em seguida diz: “Ou qual é o rei que, pretendendo sair à guerra contra outro rei, não senta primeiro e pondera se com dez mil homens é capaz de enfrentar aquele que vem contra ele com vinte mil? Se não for capaz, enviará uma delegação enquanto o outro ainda está longe e pedirá um acordo de paz” (Lucas 14:31–32).
Embora esta segunda parábola apresente o mesmo ponto da primeira, a decisão do rei põe em risco a vida de dez mil soldados, além da sua própria, de modo que as consequências são potencialmente muito mais graves. O homem que não calcula o custo da torre enfrenta apenas vergonha e zombaria, enquanto o rei encara a possibilidade de muitos soldados perderem a vida e de perder o seu reino.
Embora os riscos sejam maiores na segunda parábola, o ponto é o mesmo. O rei precisa avaliar a situação com sabedoria. Ele dispõe de apenas metade do número de soldados de seu inimigo e, para vencer, seus homens precisariam ser muito mais habilidosos do que os do exército adversário. Também precisariam ser extraordinariamente corajosos para enfrentar sem hesitar um exército com o dobro do seu contingente.
Além disso, ele precisaria considerar se dispunham de algum outro tipo de vantagem — conhecimento do terreno e das condições climáticas, melhores linhas de suprimento ou uma população civil mais favorável — que compensasse a diferença numérica. O rei precisa avaliar se há condições para que seus soldados saiam vitoriosos e se vale a pena travar essa batalha.
A primeira parábola mostra que quem está considerando tornar-se discípulo de Jesus deve calcular o custo, para avaliar se está disposto a assumir o que isso exige. A segunda aconselha a considerar as possibilidades de sucesso antes de tomar uma decisão importante, como assumir o compromisso do discipulado. As duas parábolas alertam quem pensa em tornar-se discípulo a avaliar sua situação e decidir depois de refletir bastante. É um chamado a tomar uma decisão ponderada e a assumir conscientemente o compromisso do discipulado.
Quando lemos sobre Jesus chamando Seus primeiros discípulos, ficamos impressionados ao ver como eles deixaram tudo e O seguiram.
“Enquanto andava às margens do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e André. Eles estavam lançando redes ao mar, pois eram pescadores. Então, Jesus lhes disse: ‘Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens.’ No mesmo instante, eles deixaram as redes e o seguiram. Indo adiante, viu outros dois irmãos: Tiago e João, filhos de Zebedeu. Eles estavam no barco com Zebedeu, o seu pai, preparando as redes. Jesus os chamou, e eles, deixando imediatamente o barco e o pai, o seguiram” (Mateus 4:18–22).
Embora tenham seguido Jesus imediatamente quando Ele os chamou, esse não foi necessariamente o primeiro encontro deles. No Evangelho segundo João, lemos que André, irmão de Simão Pedro, encontrou Jesus e passou o dia com Ele (João 1:38–42). Na manhã seguinte, encontrou seu irmão Pedro e lhe disse: “Achamos o Messias — que quer dizer ‘Cristo’” (João 1:41). Não há indicação de que Pedro ou André tenham seguido Jesus naquele momento.
Em Lucas, lemos que Jesus estava ensinando às margens do lago de Genesaré quando viu dois barcos perto da praia e os pescadores em terra lavando as redes. Jesus entrou em um dos barcos, que pertencia a Simão (Pedro). Quando terminou de ensinar, disse a Simão que fosse para onde as águas eram mais fundas e lançasse as redes. Ao obedecer, Pedro pescou grande quantidade de peixes e pediu a Tiago e João, seus companheiros, que se aproximassem para ajudá-lo (Lucas 5:1–11).
Em outras passagens dos Evangelhos, vemos exemplos de como Jesus alertou aqueles que queriam segui-lO para o custo do discipulado:
“Então, um mestre da lei aproximou-se dele e disse: ‘Mestre, eu te seguirei para onde quer que fores.’ Jesus respondeu: ‘As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.’ Outro discípulo lhe disse: ‘Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai.’ Jesus, porém, lhe disse: ‘Siga-me e deixe que os mortos sepultem os seus próprios mortos’” (Mateus 8:19–22).
Jesus não buscava multidões para segui-lO, mas aqueles que O seguiriam, não por causa de Sua popularidade, nem porque alimentava as multidões e realizava milagres, mas porque acreditavam profundamente em quem Ele era e na verdade que ensinava. Ele os advertiu de que deveriam encarar as possíveis consequências do discipulado, refletir sobre as exigências que este lhes imporia e certificar-se de que compreendiam o que ele requeria. Então, depois de considerarem todos os possíveis desafios, dificuldades e sacrifícios, chamou-os a tomar a decisão consciente de segui-lO. Ele não tentava desencorajar as pessoas de optar pelo discipulado, mas as incentivava a considerar cuidadosamente o que isso significa.
Escolher seguir Jesus é escolher reestruturar nossa vida de acordo com Seus ensinamentos. Significa mudar nossa maneira de pensar e redefinir nossas prioridades quanto ao uso do nosso tempo, energia e dinheiro. Isso muda nossos relacionamentos e a forma como interagimos com os outros. É um chamado para reordenar radicalmente nossa vida, a ponto de estarmos dispostos a suportar zombaria, discriminação ou perseguição por causa da nossa fé (Mateus 5:10–12). É um compromisso para toda a vida e exige uma decisão sincera e plena de segui-lO.
A escolha de ser seguidor de Jesus é a melhor — e mais importante — decisão que alguém pode tomar, pois melhora nossa vida não apenas agora, mas por toda a eternidade. E, se formos diligentes em compartilhar a mensagem de salvação de Jesus, isso também melhorará a vida de outras pessoas.
Publicado originalmente em janeiro de 2018. Adaptado e republicado em agosto de 2026.
1 Arland J. Hultgren, The Parables of Jesus (Grand Rapids: Eerdmans, 2000), 139.