As Últimas Aparições e a Comissão de Jesus
Por Peter Amsterdam
[The Final Appearances and Commission of Jesus]
No final dos Evangelhos segundo Mateus, Marcos e Lucas, lemos sobre as últimas interações de Jesus com Seus discípulos, antes da Sua ascensão ao céu.
No relato de Mateus, lemos: “Os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes indicara. Quando o viram, o adoraram; alguns, porém, duvidaram” (Mateus 28:16–17). Embora a reação da maioria dos discípulos ao ver Jesus tenha sido adorá-Lo, somos informados de que, entre os onze discípulos que restaram após a morte de Judas, alguns hesitaram, ficaram inseguros e duvidaram. Talvez alguns não tivessem certeza de que era realmente Jesus que estavam vendo.
Em outros trechos dos Evangelhos, lemos que os discípulos não reconheceram Jesus. “Os olhos deles foram impedidos de reconhecê-lo” (Lucas 24:16). “Ao amanhecer, Jesus estava na praia, mas os discípulos não o reconheceram” (João 21:4). (Veja também Lucas 24:30–31.)
Mateus relata que, quando chegaram ao monte: “Jesus se aproximou deles e lhes disse: ‘Toda a autoridade me foi dada nos céus e na terra’” (Mateus 28:18). Jesus começou afirmando que, em Seu corpo ressurreto, era muito diferente do pregador itinerante que curava e fazia milagres que eles conheciam tão bem.
A expressão “Toda a autoridade me foi dada nos céus e na terra” ecoa Daniel 7:14, que diz: “Ele recebeu autoridade, glória e o reino; todos os povos, nações e homens de todas as línguas o adoraram. O seu domínio é um domínio eterno, que não acabará, e o seu reino jamais será destruído.”
Ao longo do Evangelho segundo Mateus, Jesus usou a linguagem de Daniel 7:13–14 ao falar do futuro reinado do Filho do homem. Por exemplo: “Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, e todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do homem vindo sobre as nuvens do céu com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos, com grande som de trombeta, os quais reunirão os seus eleitos dos quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus” (Mateus 24:30–31).
Depois de declarar que toda a autoridade nos céus e na terra Lhe havia sido dada, Jesus instruiu Seus discípulos: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu ordenei a vocês” (Mateus 28:19–20).
Em vez de Se concentrar nas maneiras pelas quais Sua autoridade seria exercida, Jesus tratou do que isso significava para Seus seguidores. Por ser o Cristo ressurreto, o Filho de Deus, e por possuir toda a autoridade de Deus, Ele podia comissionar Seus discípulos a “ir” e “fazer discípulos”. A missão deles era anunciar a vida, a morte e a ressurreição de Jesus; ensinar e treinar os convertidos, para que estes também levassem essa mensagem por todo o mundo.
As últimas palavras de Jesus no livro de Mateus são: “E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mateus 28:20). Essa é a promessa final de que Seus discípulos não seriam deixados por conta própria, tentando segui-Lo da melhor maneira possível; ao contrário, Jesus estaria sempre com eles.
O final longo no evangelho segundo Marcos
No último capítulo do livro de Marcos (Marcos 16), lemos que Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé levaram especiarias aromáticas ao sepulcro de Jesus para ungir Seu corpo (Marcos 16:1–4). Ao entrarem no sepulcro, viram um jovem (um anjo) sentado à direita, vestido de branco, e ficaram amedrontadas (Marcos 16:5). O anjo instruiu as mulheres: “‘Vão e digam aos discípulos dele e a Pedro: Ele está indo adiante de vocês para a Galileia. Lá vocês o verão, como ele disse a vocês’. Tremendo e assustadas, as mulheres saíram e fugiram do sepulcro. E não disseram nada a ninguém, porque estavam amedrontadas” (Marcos 16:7–8).
É nesse ponto que terminam algumas das traduções mais antigas do Evangelho segundo Marcos. No entanto, outras versões da Bíblia incluem mais doze versículos (Marcos 16:9–20). Esses versículos são conhecidos como “O Final Longo”. Quando aparecem nas Bíblias atuais, normalmente são impressos em itálico e, muitas vezes, colocados entre colchetes para distingui-los dos oito primeiros versículos desse capítulo.
Alguns cristãos dos primeiros séculos, como Justino Mártir (c. 100–165), citaram Marcos 16:20 em seus escritos, assim como outros autores cristãos dos séculos I e II, portanto há algum fundamento para aceitá-los como parte do original. Contudo, esses doze versículos finais não aparecem em alguns dos manuscritos mais antigos em grego, latim, siríaco, copta e armênio, por isso também é possível que tenham sido acrescentados posteriormente. As notas de estudo da ESV comentam o seguinte sobre essa passagem:
Como em muitas traduções, os editores da versão ESV* colocaram a seção entre colchetes, demonstrando suas dúvidas quanto a ela ter feito parte originalmente do que Marcos escreveu, mas também reconhecendo sua longa história de aceitação por muitos na igreja. O conteúdo dos versículos 9-20 é mais bem explicado por referência a outras passagens dos Evangelhos e do restante do NT. (A maior parte de seu conteúdo encontra-se em outros trechos, e nenhum ponto doutrinário é afetado pela ausência ou presença dos versículos 9–20.) *(não disponível em português)
Como o “Final Longo” está incluído na maioria das Bíblias, faremos aqui comentários sobre esses versículos.
“Quando Jesus ressuscitou, na madrugada do primeiro dia da semana, ele apareceu primeiramente a Maria Madalena, de quem havia expulsado sete demônios. Ela foi e contou aos que haviam estado com ele, os quais estavam lamentando e chorando. Quando ouviram que Jesus estava vivo e fora visto por ela, não creram”” (Marcos 16:9–11).
Lemos que, no domingo, o primeiro dia da semana, Jesus apareceu a Maria Madalena. Os Evangelhos de Lucas e João também relatam a presença de Maria Madalena quando descobriram que Jesus já não estava no sepulcro e como ela foi avisar os discípulos que o corpo de Jesus havia desaparecido. No Evangelho segundo Marcos, os discípulos, que lamentavam e choravam a morte de Jesus, recusaram-se a acreditar que Maria Madalena O havia visto e que Ele continuava vivo. A reação deles ecoa o que nos é dito no Evangelho segundo Lucas: “Entretanto, os discípulos não acreditaram nas mulheres, porque as palavras delas lhes pareciam loucura” (Lucas 24:11).
“Depois, Jesus apareceu em outra forma a dois deles, estando eles a caminho do campo. Eles voltaram e relataram isso aos outros, mas não creram nos dois” (Marcos 16:12–13). Isso remete ao relato do Evangelho segundo Lucas sobre dois discípulos que caminhavam para Emaús quando encontraram Jesus no caminho, mas não O reconheceram (Lucas 24:13–16). Não nos é dito em que outra forma Ele lhes apareceu, nem se O reconheceram imediatamente. Assim como os discípulos que caminhavam para Emaús, eles voltaram para onde os demais discípulos estavam a fim de contar que haviam visto Jesus.
“Mais tarde Jesus apareceu aos Onze enquanto eles comiam; censurou-lhes a incredulidade e a dureza de coração, porque não acreditaram nos que o tinham visto depois de ressurreto” (Marcos 16:14). Quando mais tarde Jesus apareceu aos onze, repreendeu-os por sua incredulidade e pela dureza de coração. É difícil imaginar que os onze não acreditassem que seus companheiros diziam a verdade, mas, considerando tudo o que havia acontecido — a prisão, a crucificação, o sepultamento e a ressurreição de Jesus —, provavelmente foi um período difícil e confuso para os discípulos.
Jesus prosseguiu dizendo: “Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas” (Marcos 16:15). Aqui Ele expressou a comissão dada a Seus seguidores: eles deveriam levar Sua mensagem — o Evangelho — e compartilhá-la com todos. Em outras palavras, pregar a mensagem a toda a criação, no Evangelho segundo Marcos, significava levar a mensagem de Jesus para além de Israel, para além do judaísmo. Os discípulos deveriam compartilhar o evangelho com todos, em toda parte.
Nessa passagem, Jesus prossegue dizendo: “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (Marcos 16:16). A fé em Jesus é essencial para a salvação, como se afirma ao longo dos Evangelhos. “Quem crê no Filho tem a vida eterna; já quem rejeita o Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele” (João 3:36).
“Estes sinais acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal nenhum; imporão as mãos nos doentes, e estes ficarão curados” (Marcos 16:17–18).
O livro de Atos também fala do cumprimento dos sinais de que Jesus disse que acompanhariam os que cressem. “Os apóstolos realizavam muitos sinais e maravilhas no meio do povo” (Atos 5:12). Também descreve ocasiões em que os discípulos expulsaram demônios, como quando o apóstolo Paulo expulsou o espírito que possuía uma mulher (Atos 16:16–18). O falar em línguas é descrito no livro de Atos no relato do dia de Pentecostes, quando os discípulos “ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito permitia que se expressassem” (Atos 2:1–4).
O “Final Longo” do Evangelho segundo Marcos termina com a ascensão de Jesus ao céu: “Depois de lhes ter falado, o Senhor Jesus foi elevado ao céu e assentou-se à direita de Deus. Então, os discípulos saíram e pregaram por toda parte; e o Senhor cooperava com eles, confirmando-lhes a palavra com os sinais que a acompanhavam” (Marcos 16:19–20).
No livro de Atos, também lemos um relato da comissão de Jesus a Seus discípulos e de Sua ascensão: “até o dia em que foi elevado aos céus, depois de ter dado instruções por meio do Espírito Santo aos apóstolos que havia escolhido, […] aparecendo-lhes por um período de quarenta dias, nos quais falava acerca do reino de Deus” (Atos 1:2–3). Suas últimas palavras antes da ascensão ecoam a comissão dada aos discípulos nos Evangelhos: “Receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra” (Atos 1:8).
No final do Evangelho segundo Mateus, em Mateus 28:18–20, Jesus ressurreto e com plena autoridade sobre os céus e sobre a terra, comissionou os discípulos a “ir” e “fazer discípulos” em toda parte. Essa orientação difere da que havia sido dada anteriormente nesse Evangelho, quando Jesus instruiu Seus discípulos: “Não se dirijam aos gentios, nem entrem em nenhuma cidade dos samaritanos” (Mateus 10:5).
Agora eles deveriam ir a todas as nações e, entre aqueles que cressem, batizá-los em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo — o Deus triúno, a Trindade. Pois, “Há um só corpo e um só Espírito, como também uma só esperança quando foram chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Efésios 4:4–6).
Além de ir e fazer discípulos, os seguidores de Jesus deveriam ensiná-los a “obedecer a tudo o que eu ordenei a vocês”. Algumas traduções da Bíblia dizem “ensinando-os a obedecer a tudo o que eu ordenei a vocês (Mateus 28:20). Os que creem são chamados a ensinar e a obedecer aos ensinamentos de Jesus, aplicando-os à vida diária. Viver e compartilhar a mensagem do amor de Deus, a morte sacrificial de Jesus e e Seu dom da vida eterna é a missão confiada a cada um de nós.
Ao vivermos em amor e a serviço de Deus, fazendo o possível para compartilhar com os outros Sua mensagem de amor e salvação, podemos nos alegrar e estar em paz ao ouvir a promessa de Jesus: “E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mateus 28:20).
Publicado originalmente em agosto de 2022. Adaptado e republicado em julho de 2026.