O Chamado para Perdoar
Por Peter Amsterdam
[The Call to Forgiveness]
Lemos nos Evangelhos que Jesus foi açoitado, espancado e pregado a uma cruz. Pendurado, aguardando a morte, algumas de Suas últimas palavras foram: “Pai, perdoa-lhes” (Lucas 23:34). O perdão foi Sua resposta a um julgamento injusto, aos flagelos que dilaceravam Sua pele causando dor indescritível, aos pregos cravados em Suas mãos e pés, e ao abandono que sofreu enquanto agonizava até a morte. Apesar de surpreender, a reação é perfeitamente coerente com o que Jesus ensinou sobre o perdão ao longo do Seu ministério. Ele não apenas ensinou, mas encarnou Sua mensagem, tanto na vida quanto na morte. Praticou o que pregou.1
O perdão de Jesus refletiu o concedido por Seu Pai. No Antigo Testamento, ao Se revelar a Moisés, Deus disse de si mesmo: “Senhor, Senhor Deus compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade, que mantém o seu amor a milhares e perdoa a maldade, a rebelião e o pecado” (Êxodo 34:6-7). Deus estava dizendo que o perdão é um de Seus atributos divinos, arraigado ao Seu caráter. Esse ponto é reiterado diversas vezes no Antigo Testamento, como vemos nos versículos a seguir:
Tu és um Deus perdoador, um Deus bondoso e misericordioso, muito paciente e cheio de amor (Neemias 9:17).
Quem é comparável a Ti, ó Deus, que perdoas o pecado e esqueces a transgressão do remanescente da sua herança? Tu, que não permaneces irado para sempre, mas tens prazer em mostrar amor (Miquéias 7:18).
Também nos é dito que, quando Deus perdoa nossos pecados, eles não nos são mais imputados. “Eu lhes perdoarei a sua maldade, e não me lembrarei mais dos seus pecados” (Jeremias 31:34). (Veja também Hebreus 8:12). A magnitude do perdão divino se evidencia nas seguintes afirmações: “[Deus] atirará todos os nossos pecados nas profundezas do mar” (Miquéias 7:19). “E quanto está longe o oriente do ocidente, assim ele afasta para longe de nós as nossas transgressões” (Salmo 103:12).
Deus, por natureza, é perdoador. Fiel ao Seu caráter, Ele criou para nós um caminho para o perdão por meio do sacrifício de Seu Filho, Jesus. De certa forma, podemos dizer que a morte de Jesus foi a personificação do perdão de Deus. Se quisermos seguir o exemplo de Jesus, precisamos perdoar.
Os seguintes versículos mostram que Jesus foi absolutamente claro em Seus ensinamentos sobre a necessidade de perdoarmos os outros.
Então Pedro, aproximando-se, lhe perguntou: “Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?" Jesus respondeu: "Eu lhe digo: não até sete, mas até setenta vezes sete”. (Mateus 18:21-22).
Quando estiverem orando, se tiverem alguma coisa contra alguém, perdoem-no (Marcos 11:25).
“Se pecar contra você sete vezes no dia, e sete vezes voltar a você e disser: ‘Estou arrependido’, perdoe-lhe” (Lucas 17:4).
Jesus também deixou clara a correlação entre nossa disposição para perdoar e o perdão que recebemos de Deus, ensinando Seus seguidores a orar: “Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores”, “Mas se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não lhes perdoará as ofensas” (Mateus 6:12,15).
Na parábola do credor incompassivo, Jesus ilustrou esse princípio ao contar sobre o homem que, depois de ter sido perdoado de uma dívida astronômica por seu senhor, se recusou a perdoar uma pequena dívida alguém que lhe devia dinheiro (Mateus 18:23-35). O senhor então disse àquele que não foi capaz de perdoar: “‘Servo mau, cancelei toda a sua dívida porque você me implorou. Você não devia ter tido misericórdia do seu conservo como eu tive de você?’ Irado, seu senhor entregou-o aos torturadores, até que pagasse tudo o que devia. ‘Assim também lhes fará meu Pai celestial, se cada um de vocês não perdoar de coração a seu irmão’” (Mateus 18:32-35).
O perdão que concedemos aos outros reflete nossa compreensão do perdão divino. Devemos perdoar porque fomos perdoados. Jesus morreu para que nossos pecados fossem perdoados, pelo que somos chamados a estender esse mesmo perdão àqueles que nos ofendem e prejudicam. Isso é mostrar semelhança a Cristo.
O que é (e o que não é) perdão
Cristo nos chama a perdoar quem prejudica intencionalmente ou não. Para isso, é importante saber o que é o perdão e o que ele não é.
Alguns males são causados intencionalmente. Somos vítimas de alguma forma de ataques físicos, verbais ou emocionais; somos traídos por alguém que amamos — nosso cônjuge, um membro da família ou amigo próximo. Outros podem começar pequenos, mas se acumulam conforme se tornam recorrentes.
Perdoar não é negar que fomos vítimas de algo ou alguém. Não é inventar desculpas para justificar o ofensor ou minimizar a seriedade da ofensa. Não significa que a dor cessou ou que tenha sido esquecida. Perdoar não é retomar um relacionamento sem mudanças ou a restauração automática da confiança. Às vezes, as consequências são inevitáveis, mesmos quando a causa da ofensa é perdoada.
Quem perdoa olha para o mal sofrido, admite ter sido ferido e, conscientemente, decide perdoar. É reconhecer que o que foi feito teve consequências pessoais, foi injusto, profundo, e escolher perdoar a pessoa ou as pessoas que o feriram. É renunciar aos sentimentos negativos em relação a alguém que nos prejudicou e deixar para trás, para que pare de nos afetar negativamente.
Como Kelly Minter explica em seu livro The Fitting Room: “Perdoar é encarar o mal que nos fizeram, reconhecer seu verdadeiro valor e, ainda assim, escolher perdoar. Não tem nada a ver com a negação do que foi feito e nos prejudicou, mas com a mudança de nosso coração com respeito ao mal praticado”.
Às vezes, queremos condicionar o perdão a um pedido de desculpas. Esperamos que a pessoa reconheça o erro e demonstre arrependimento. Mas isso pode prolongar a dor indefinidamente. A Bíblia não condiciona nosso perdão ao arrependimento expresso de quem nos fez mal.
Há situações em que somos prejudicamos porque os problemas de outros acabam nos afetando – como problemas matrimoniais que podem magoar seus filhos, ainda sem essa intenção. Às vezes, somos feridos pelos erros cometidos por alguém que agiu de boa-fé, mas causou dano.
Nessas situações, é bom lembrar que nós também, involuntariamente, magoamos os outros e precisamos do seu perdão e, claro, queremos ser perdoados. Por isso, devemos também estar dispostos a perdoar aos que nos prejudicaram. Como Jesus disse: “Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas” (Mateus 7:12).
É importante ressaltar que nem tudo o que sofremos precisa ser perdoado. Muitas das coisas ruins que acontecem são causadas por pessoas que não tinham intenção de nos fazer mal. Estamos constantemente interagindo com gente que muitas vezes diz ou faz coisas sem querer prejudicar os outros, mas mesmo assim prejudicam. Essas situações em geral não deixam mágoas profundas nem causam prejuízos permanentes. O perdão é uma decisão pessoal. É uma pessoa perdoando outra que lhe causou um dano pessoal.
O ato de perdoar
Entender e concordar com o que as Escrituras nos dizem sobre perdoar é uma coisa. Colocar em prática pode ser difícil e um processo difícil e doloroso. C. S. Lewis escreveu: “Todo mundo acha que o perdão é uma ideia maravilhosa, até ter de perdoar alguém”.
A palavra grega mais comumente traduzida como perdoar é aphiemi, usada para expressar o ato de renunciar de algo ou cancelar uma dívida. Quando perdoamos, isentamos o ofensor de uma dívida legítima. Reconhecemos o prejuízo, a traição da nossa confiança e o efeito da outra pessoa na nossa vida. Mas entendemos que também somos pecadores, ofendemos, ferimos os outros, e que nossas ofensas foram perdoadas por Deus. Quando perdoamos, tomamos a decisão de abandonar a nossa dor, o desejo de vingança, a ira e os sentimentos negativos, colocando a pessoa e a situação nas mãos de Deus e seguindo em frente.
Colocar ações que nos feriram profundamente e as pessoas responsáveis por elas nas mãos de Deus significa que as confiamos a Ele e podemos deixá-las ir. Não precisamos mais nos deter no que aconteceu ou no porquê, pois confiamos isso a Deus. Fazendo isso, conseguimos liberar nossos sentimentos negativos em relação àquele que nos causou a perda, deixar de lado o ressentimento e a raiva, e permitir que nosso próprio processo de cura emocional comece.
É natural pensar que perdoar significa justificar as ações da outra pessoa. Não é assim. Pelo contrário, você se liberta da dor causada pela ofensa, permitindo que você avance sem o assédio contante dos sentimentos ruins em relação ao ofensor. O perdão geralmente dá início a um processo de redução gradual dos sentimentos negativos, embora nem sempre surjam imediatamente os sentimentos positivos, ainda que isso às vezes aconteça.
Se quisermos continuar a nos relacionar com a pessoa em questão, o passo seguinte ao perdão é a reconciliação. No entanto, nem sempre é possível se reconciliar, porque a outra pessoa não faz mais parte da sua vida. Também pode acontecer que, embora você tenha perdoado a pessoa, ela não seja alguém com quem você sinta vontade de manter um relacionamento contínuo, ou que isso não seja benéfico para sua vida espiritual ou bem-estar emocional. Isso não significa que você não tenha perdoado.
O perdão é complexo e tem muitos aspectos. No entanto, está bem claro que Jesus, pelo Seu exemplo e ensinamentos, enfatizou o perdão. Ele disse que nós. Seus seguidores, devemos perdoar, sem estabelecer limites ou condições para esse mandamento. Se quisermos verdadeiramente nos tornar mais como Jesus, então devemos perdoar aos outros suas ofensas — por mais difícil que seja — porque Deus nos perdoou nossas ofensas contra Ele. “Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou” (Colossenses 3:13).
Publicado originalmente em setembro de 2017. Adaptado e republicado em fevereiro de 2026.
1 Pontos para este artigo foram tirados do livro Forgive and Forget, by Lewis B. Smedes (New York: HarperOne, 1984).
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