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Julho 16, 2014

Gemidos Inexprimíveis

Philip Martin

Hoje tive uma experiência que trouxe à vida a expressão “manter as coisas na perspectiva correta”.

Na arte ou no desenho arquitetônico, perspectiva é a “técnica de representação do espaço tridimensional numa superfície plana, de modo que a imagem obtida se aproxime daquela que se apresenta à visão”. Metaforicamente, perspectiva é “a capacidade de perceber as coisas inter-relacionadas ou em sua importância comparativa”.

Recentemente, alguém que nos é muito querido e a quem dedicamos bastante tempo tentando ajudar, nos magoou profundamente. Ficamos tão desgostosos com a situação que, durante um tempo, tudo que conseguíamos ver era a dor e a decepção. Inclusive tivemos de nos afastar uns dias para podermos nos recompor espiritualmente. O sentimento era de que a pessoa nos havia usado, tirado proveito de nós e nos traído.

“Como pôde fazer isso depois de tudo que fizemos por ele? Nunca mais vou ajudá-lo.” Queríamos ser vingativos; não víamos como superar aquele incidente que me parecia tão grande que não conseguia me concentrar em outra coisa.

À noite, antes de me deitar, passando os olhos nas manchetes e artigos do Yahoo.Ca, vi logo na primeira série de artigos a notícia da morte acidental de uma menina de sete anos, na ocasião sob os cuidados de amigos da sua família. Acho que não devia ter lido aquilo antes de dormir, pois me deixou muito impressionada.

Acordei várias vezes durante a noite com um sentimento profundo por aquelas duas famílias. Era como se eu tentasse em vão encontrar palavras para expressar como me condoía delas. “Meu Deus, como é possível carregar isso pelo resto da vida? Como pedir perdão? Onde encontrar forças para perdoar? Como recolher os cacos e recomeçar a vida?” Esses pensamentos passavam continuamente pela minha cabeça.

Eu orava em línguas às vezes, mas a maior parte do tempo não era uma oração, mas como se o meu espírito, ou o Espírito do Senhor, gemesse no meu íntimo. As únicas palavras que eu conseguia proferir eram: “Jesus, por favor, ajude essas pessoas”. Orei para que fossem cristãs, conhecessem o Senhor e pudessem contar com Ele para ajudar a aliviar sua dor. O versículo “Da mesma forma, o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis”[1] não saía da minha cabeça. Perguntei: “Senhor, é a esses “gemidos” que o Senhor Se refere?

Desnecessário é dizer que acordei com o espírito inquieto. Procurava palavras de consolo, forças e o reconforto do Senhor de que, de alguma maneira tudo ia dar certo. Acho que eu queria confirmar que os meus “gemidos” estavam sendo ouvidos e que, de alguma forma, as pessoas envolvidas naquela trágica perda teriam o consolo que precisavam.

Ao acessar a Internet, recebi uma notificação do site Âncora de uma nova postagem: “O Poder da Intercessão”. Era a resposta que o Senhor queria me dar, as palavras que eu precisava. Minha alma faminta e atribulada absorveu cada palavra nessa mensagem:

As orações misturam-se às pessoas, tocando, curando e restaurando. Dão forças, vigor e coragem. Renovam os ânimos. Tocam e curam corações, corpos e mentes. Dissipam dúvidas, temores e preocupações. Levam embora o rancor, a inveja, os ciúmes e as contendas. Elas eliminam pesares e mal-entendidos com um beijo. Abrandam mágoas, curam feridas e removem cicatrizes.

As orações protegem e mantêm em segurança. Elas consolam, acalentam e trazem paz e tranquilidade. Alimentam, vestem e provêm em abundância. Inspiram, animam, alegram e trazem êxito. Elas encorajam, levantam, motivam, enlevam, energizam, fortalecem, capacitam, revigoram e dão vida. Elas iluminam e dão esperança. Dão estabilidade e prudência, dão firmeza, saúde e equilíbrio.—Jesus, falando em profecia

Ao pensar no sofrimento dessas pessoas, percebi que a minha dor e sofrimento emocional eram minúsculos. Consegui vê-los na “perspectiva correta”, sem bloquear a luz da vontade do Senhor. Percebi também como sou abençoado por conhecer o Senhor e poder colocar em Suas mãos minhas preocupações, problemas, desapontamentos e dores, na certeza de que Ele me ouve, Se importa e jamais permitirá que eu seja tentado além do que posso suportar.

Parei um pouco para refletir na bondade de Deus e me banhar na luz de Suas reconfortantes palavras. Peguei um devocional que tenho lido todos os dias chamado Like Christ (Como Cristo, em tradução livre), de Andrew Murray. Abri na página onde tinha parado, e o capítulo do dia era “Como Cristo: Sofrendo Injustiça”.

O tempo de Deus é perfeito. Provavelmente, se eu tivesse lido isso um dia antes, não teria percebido a beleza daquelas palavras, porque o meu espírito não estava na posição certa para receber aquela reconfortante luz. As palavras iam tomando vida conforme eu lia, e da mesma forma eu ia me libertando. Segue-se um trecho:

Uma das coisas mais difíceis de suportar é a injustiça. Não se trata apenas da perda e da dor, mas é a humilhação, a injustiça, porque conhecemos bem os nossos direitos.

O pensamento principal (de Jesus) não era como se safar daquilo pelo que estava passando, mas como glorificar a Deus. Essa atitude O capacitou a suportar a maior injustiça de todas em silêncio, pois via Deus agindo na situação.

Ajuste-se em tudo o que acontece na sua vida, para poder ver a mão e a vontade de Deus. Ele permite que eu viva esse problema para ver se vou glorificá-lO. Essa batalha, quer seja a maior ou menor, é permitida por Deus e está de acordo com a Sua vontade a meu respeito. Devo primeiro reconhecer e me submeter à vontade de Deus. E então, com o ânimo que isso me dá, recebo sabedoria para saber como lidar com a situação. Quando olho para Deus e não para as circunstâncias, as injustiças não são tão difíceis de suportar.

Aquele que vive no plano da eternidade, como se visse o invisível, fica em paz e deixa Deus defender sua honra e seus direitos. Ele sabe que, nas mãos de Deus, tudo vai dar certo. Deixe Deus cuidar dos seus direitos e da sua honra.

Senhor meu Deus, entrego em Suas mãos, de uma vez por todas, minha honra e meus direitos. Não quero mais me preocupar com isso. Você vai cuidar de tudo perfeitamente. Que minha única preocupação seja cuidar da honra e dos direitos do meu Senhor![2]

Amém!

Tradução Hebe Rondon Flandoli.


[1] Romanos 8:26 NVI.

[2] O livro de Andrew Murray, Like Christ (1901) é de domínio público e pode ser baixado gratuitamente em diferentes sites, inclusive em  http://www.forgottenword.org/commentaries/murray_like_christ.pdf e http://www.swartzentrover.com/cotor/e-books/christ/Murray/LikeChrist/Like%20Christ.pdf.