Outubro 12, 2026
[More Like Jesus—Part 1]
Nós, cristãos, somos chamados a ser mais como Jesus: a ter mais de Sua bondade e piedade em nossa vida e menos dos pesos e pecados que nos atrapalham. Embora nossos pecados sejam perdoados por termos aceitado o sacrifício de Jesus, isso não significa que automaticamente deixamos de pecar, de sofrer os efeitos do pecado em nossa vida ou de afetar os outros com nossos pecados. Nossa salvação — a reconciliação com Deus que recebemos por meio do sacrifício de Jesus na cruz — não se destina apenas a determinar nossa vida na eternidade, mas também a transformar a vida que levamos hoje, dia após dia.
É por meio dessa transformação diária que desenvolvemos o relacionamento com nosso Criador para o qual fomos feitos e experimentamos Sua alegria, paz e realização, pois vivemos com uma compreensão mais profunda de Deus e um relacionamento mais pleno com Ele. Por sermos cristãos, nosso propósito central é viver como o povo de Deus, como as novas criaturas que as Escrituras dizem que somos: “Se alguém está em Cristo, é uma nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas!” (2 Coríntios 5:17).
Ao estudar o exemplo da vida de Jesus e o que Ele e Seus primeiros seguidores ensinaram sobre viver como novas criaturas em Cristo, podemos aprender, desenvolver um caráter cristão e nos tornarmos mais semelhantes a Ele. Para isso, é útil examinar alguns aspectos do Antigo Testamento, dos Evangelhos e das Epístolas. Relacionar diferentes pontos de referência ao longo das Escrituras pode nos ajudar a compreender mais profundamente a importância de imitar a Cristo.1
O Antigo Testamento
Um dos temas centrais que percorrem o Antigo Testamento é o entendimento de que o relacionamento de Deus com a humanidade se baseia em uma aliança. As Escrituras nos dizem que o Criador de todas as coisas fez uma aliança com a humanidade: “Então, Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou e lhes disse: ‘Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que rastejam sobre a terra.’” (Gênesis 1:27–28).
Mais tarde, Deus renovou Sua aliança universal com a humanidade ao dizer a Noé: “A partir de agora, estabeleço a minha aliança com vocês, com os seus futuros descendentes e com todo ser vivo que está com vocês — as aves, os animais de rebanho e os animais selvagens, ou seja, todos os que saíram da arca com vocês — todos os animais da terra. Estabeleço a minha aliança com vocês: nunca mais haverá um dilúvio que ceife toda forma de vida; nunca mais haverá dilúvio para destruir a terra” (Gênesis 9:9–11).
Deus então fez uma aliança específica com Abraão, dizendo-lhe que, por meio dele, faria surgir uma grande nação e que nele todas as famílias da terra seriam abençoadas. “Da minha parte, esta é a minha aliança com você. Você será o pai de uma multidão de nações. Já não será chamado Abrão; agora, o seu nome será Abraão, porque eu o constituí pai de uma multidão de nações” (Gênesis 17:4–5).
Séculos depois, Deus libertou os descendentes de Abraão da escravidão e da opressão no Egito, e assim eles se tornaram o povo da Sua aliança (Levítico 26:12). Como partícipes da aliança com Deus, os hebreus tinham responsabilidades a cumprir para honrar os compromissos assumidos. A narrativa do restante do Antigo Testamento mostra, de modo geral, que Deus permaneceu fiel à aliança, apesar de Israel repetidamente deixar de cumpri-la.
Como Israel tinha uma aliança com um Deus santo, também deveria ser santo. O povo foi convocado para uma “reunião sagrada” (Êxodo 12:16). Isso significava obediência a Deus, motivada pelo amor e pela gratidão (Deuteronômio 6:20–22). O povo de Deus foi chamado a amá-lO com todo o seu ser: “Ame ao Senhor, o seu Deus, com todo o seu coração, com toda a sua alma e com todas as suas forças” (Deuteronômio 6:5).
Para o povo judeu, a justiça envolvia obediência, o que significava se afastar do que era considerado impuro, não adorar outros deuses e se consagrar ao serviço de Deus. Além de orientar a vida pelos mandamentos divinos, isso também significava viver como uma comunidade de fé. Participar da aliança com Deus implicava viver de maneira que refletisse Seu caráter, Sua vontade revelada e Sua Palavra.
Por meio das palavras que lhes dirigiu, registradas nas Escrituras, Deus revelou Seu caráter a Israel. Eles aprenderam que Ele era fiel, santo, justo e misericordioso. Ele Se descreveu como o “Senhor, Deus compassivo e misericordioso, tardio em irar-se e cheio de amor leal e fidelidade, que mantém o seu amor leal a milhares e perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado” (Êxodo 34:6–7). O profeta Miqueias disse: “Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige de você: pratique a justiça, ame a lealdade e ande humildemente com o seu Deus” (Miqueias 6:8).
Uma vez que Deus revelou Seu caráter ao povo da aliança, esse povo deveria imitá-lO. Deveria ser santo, justo, misericordioso, amoroso e disposto a perdoar.
Os Evangelhos
O povo hebreu aguardava o tempo em que Deus agiria em seu favor, conforme anunciado nas Escrituras. Deus correspondeu a essa expectativa ao enviar Jesus e, por meio de Sua vida, morte e ressurreição, estabeleceu uma nova aliança. “Pegando ele o pão, deu graças, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: ‘Isto é o meu corpo, dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim.’ Da mesma forma, depois de ter comido o pão, ele pegou o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado em favor de vocês.’” (Lucas 22:19–20).
Essa nova aliança foi anunciada no livro de Jeremias: “‘Estão chegando os dias’, declara o Senhor, ‘em que farei uma nova aliança com a comunidade de Israel e com a comunidade de Judá. Não será como a aliança que fiz com os seus antepassados, quando os tomei pela mão para tirá-los da terra do Egito. Porque quebraram a minha aliança, apesar de eu ser o marido deles’, declara o Senhor. ‘Esta é a aliança que farei com o povo de Israel depois daqueles dias’, declara o Senhor: ‘Porei a minha lei no íntimo deles e a escreverei no seu coração. Serei o Deus deles, e eles serão o meu povo. […] Porque eu lhes perdoarei a maldade e nunca mais me lembrarei dos seus pecados’” (Jeremias 31:31–34).
Nos dias de Jesus, os fariseus defendiam que ser justo e santo exigia uma observância rigorosa da Lei dada por Deus e que o povo de Deus era formado por aqueles que a seguiam estritamente. Concentravam-se em cumprir a letra da Lei, sem dar a devida atenção aos princípios de amor, misericórdia e perdão que a fundamentavam. Acreditavam que agradavam a Deus por obedecerem às regras da piedade judaica e seguirem a Lei à risca.
Jesus discordava deles. Ele proclamou que o povo de Deus não era formado pelos que pareciam justos por sua rigorosa observância da Lei, mas pelos que reconheciam seus pecados, lamentavam suas transgressões e humildemente pediam a Deus misericórdia e perdão. Deus aceita essas pessoas e rejeita os orgulhosos que afirmam não precisar de perdão. Jesus deixou claro que não podemos fazer por merecer o favor de Deus nem nos tornar justos aos Seus olhos por nossos próprios esforços. Pelo contrário, nossa justiça vem de Deus, que a concede gratuitamente por Sua graça incondicional.
A justiça é uma dádiva da graça de Deus, que recebemos por meio do sacrifício de Seu Filho. “Pois foi por nossa causa que Deus tratou como pecador aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21). Mas essa dádiva é apenas o começo. Por meio do sacrifício de Jesus, os que creem se tornam o povo de Deus, participantes da nova aliança. Em gratidão pelo que Deus fez por nós por meio de Jesus, espera-se que reflitamos Seu caráter no mundo e vivamos de maneira que O glorifique (Mateus 5:16). É aqui que entra a prática dos ensinamentos de Jesus.
Assim como o povo hebreu do Antigo Testamento, conhecemos o caráter revelado de Deus. Temos também a vida de Jesus como mais um exemplo do amor, da misericórdia e da bondade de Deus. Por meio de Seus ensinamentos e de Seu exemplo, Jesus ampliou nosso conhecimento da verdade a respeito de Deus. A Sua vida foi um puro reflexo de Deus.
Nos Evangelhos, vemos que Jesus apresentou Seu próprio exemplo como modelo de uma vida piedosa. Ele desafiou Seus discípulos, por exemplo, a amarem uns aos outros segundo o modelo do Seu amor por eles. “Um novo mandamento dou a vocês: Amem uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar uns aos outros” (João 13:34). “O meu mandamento é este: Amem uns aos outros como eu os amei” (João 15:12). Jesus exemplificou a submissão à vontade de Seu Pai, que por fim O levou à cruz. “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mateus 26:39).
Jesus demonstrou por meio de atos simbólicos a vida que desejava para Seus discípulos, como na ocasião em que lhes lavou os pés. Ele pegou água e uma toalha e lavou os pés de cada discípulo, tarefa que normalmente cabia a um servo quando os convidados entravam em uma casa (João 13:3–10). Ao terminar, explicou o significado simbólico do que havia feito: “Entendem o que fiz a vocês? Vocês me chamam ‘Mestre’ e ‘Senhor’, e com razão, pois eu o sou. Pois bem, se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei os pés de vocês, então vocês também devem lavar os pés uns dos outros. Eu dei o exemplo, para que, como eu fiz, também o façam” (João 13:12–15).
Quando Seus discípulos discutiam sobre qual deles deveria ser considerado o maior, Jesus lhes disse: “Os reis das nações as dominam, e os que exercem autoridade sobre elas são chamados benfeitores. Vocês, porém, não serão assim. Ao contrário, o maior entre vocês deverá ser como o menor, e aquele que governa, como o que serve. Pois quem é maior: o que está à mesa ou o que serve? Não é o que está à mesa? Eu, porém, estou entre vocês como quem serve” (Lucas 22:25–27).
Jesus não estava apenas dizendo que eles deveriam repetir o que Ele havia feito; Seu ensinamento era mais profundo. Depois de lavar os pés dos discípulos, não os exortou simplesmente a amar como O tinham visto amar. Mas disse: “Como eu os amei, vocês devem amar uns aos outros” (João 13:34). Eles deveriam amar como Ele os havia amado. Cada um havia vivenciado pessoalmente Seu amor, e era dessa mesma maneira que deveriam amar os outros.
A motivação para sermos mais como Jesus não nasce da admiração por uma figura histórica que desejamos imitar. Ela brota da gratidão e do amor por Aquele cujo amor experimentamos pessoalmente.
O autor Stanley Grenz explica:
Não olhamos para Ele apenas como o personagem principal de uma história de uma época passada, sobre cuja vida podemos refletir e, assim, extrair ensinamentos. Ele nos amou e sacrificou Sua vida por nós. Diante dessa experiência pessoal do grande amor de Jesus, sentimo-nos impelidos a responder com gratidão e amor. Por isso, em vez de apenas moldar nossa vida segundo a dEle, entramos em um relacionamento com Ele. Nesse relacionamento, desejamos viver como Cristo quer que vivamos, isto é, que Cristo seja formado em nós.2
A morte de Jesus na cruz salvou nossas almas, mudou radicalmente nossas vidas e tornou possível nosso relacionamento com Deus, com quem passaremos a eternidade. A gratidão e o amor por Jesus, que deu Sua vida para que pudéssemos nos tornar membros da família de Deus, são a motivação fundamental para desejarmos ser como Ele.
Publicado originalmente em janeiro de 2016. Adaptado e republicado em outubro de 2026.
1 Os conceitos deste artigo se baseiam no livro The Moral Quest, de Stanley J. Grenz (IVP Academic, 1997).
2 Grenz, The Moral Quest, 116.
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