A motivação correta

Setembro 7, 2026

Por Peter Amsterdam

[Right Motivation]

No capítulo 6 do Evangelho segundo Mateus, Jesus inicia esta parte do Sermão do Monte dizendo: “Tenham o cuidado de não praticar as suas obras de justiça diante dos outros para serem vistos por eles. Se fizerem isso, não terão nenhuma recompensa do seu Pai, que está nos céus” (Mateus 6:1).

A palavra “justiça”, tal como usada aqui, refere-se às práticas e observâncias da fé descritas nas Escrituras, as quais, nos exemplos apresentados por Jesus, incluem cuidar dos necessitados, orar e jejuar. Esses três exemplos representam as práticas realizadas pelos que creem como expressão de sua vida de fé. Jesus nos diz que, ao fazermos essas coisas, não devemos ter a intenção de sermos vistos pelos outros.

A palavra grega traduzida como vistos, neste caso, significa observar atentamente e admirar pessoas que são consideradas importantes. Mais adiante em Mateus, lemos que Jesus repreendeu os fariseus exatamente por isso: “Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens” (Mateus 23:5).

No início do Sermão, Jesus disse que o modo de vida dos discípulos deveria levar outras pessoas a “verem as suas boas obras e glorificar a seu Pai, que está nos céus” (Mateus 5:16). Isso pode parecer contraditório ao que Ele ensina aqui no capítulo 6. A diferença é que, no primeiro caso, Jesus Se referia ao caráter e ao modo de vida dos discípulos como um todo, enquanto, neste ponto do Sermão, Ele trata especificamente das práticas e dos deveres religiosos.

R. T. France explica:

A passagem [atual] trata da busca deliberada por reconhecimento público, enquanto [Mateus] 5:16 resume uma análise profunda do caráter dos verdadeiros discípulos, concentrada em qualidades essenciais: quem vive dessa forma será, inevitavelmente, “uma cidade construída sobre um monte, que não pode ser escondida”, quer queira, quer não. E, enquanto a ostentação religiosa produz a “recompensa” desejada dos aplausos humanos, o resultado da luz que resplandece por meio do modo de vida dos discípulos é que as pessoas glorifiquem a Deus, e não a eles.1

Por sermos discípulos, procuramos refletir a Deus por meio de nossa vida, mas isso é muito diferente de chamar deliberadamente a atenção para nós mesmos quando oramos, ajudamos os necessitados etc., com o objetivo de sermos notados e admirados pelos outros.

O primeiro exemplo dado por Jesus diz respeito à ajuda aos necessitados: “Portanto, quando você cuidar dos necessitados, não anuncie isso tocando trombetas, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem honrados pelos outros. Em verdade lhes digo que eles já receberam a sua plena recompensa” (Mateus 6:2).

A ajuda aos pobres é ordenada nas Escrituras como parte importante da vida de fé judaica. Lemos em Deuteronômio: “Sempre haverá pobres na terra. Portanto, eu ordeno a vocês que sejam generosos com os seus irmãos israelitas, tanto com o pobre como com o necessitado da sua terra” (Deuteronômio 15:11).

Sobre esse ponto, R. T. France escreveu:

No primeiro século, já havia um sistema bem-organizado de assistência aos pobres, sediado nas sinagogas, que oferecia algo semelhante ao que nossos sistemas modernos de bem-estar social financiados pelo Estado procuram proporcionar. O financiamento desse sistema dependia das contribuições dos membros da comunidade; parte vinha das normas relativas ao “dízimo para os pobres” (Deuteronômio 14:28–29), enquanto muitas outras partiam da iniciativa pessoal dos indivíduos.2

Jesus claramente esperava que Seus discípulos ajudassem os necessitados. Ele não começa com “se vocês ajudarem”, mas com “quando ajudarem”. Ele ilustra a mensagem falando de alguém que tocava trombetas ao fazer uma doação, a fim de chamar a atenção e ser admirado por sua generosidade, e censura essa prática. Ele denuncia a hipocrisia daqueles que encaram a doação como forma de autopromoção, em vez de um ato de ajuda aos pobres. Enganam-se ao pensar que estão fazendo algo bom ao doar aos pobres, quando seus motivos estão errados. Quando ajudamos os pobres, devemos fazê-lo por amor, compaixão e obediência aos mandamentos de Deus, nunca como meio de melhorar nossa reputação.

Se o objetivo de alguém é ser notado pelos outros, Jesus diz: “Em verdade lhes digo que eles já receberam a sua plena recompensa” (Mateus 6:2). Sabemos que isso é importante porque Ele começa com a declaração solene “Em verdade lhes digo”. E o que Ele afirma é importante: quem faz o bem com o propósito de receber a atenção e a aclamação dos outros já recebeu toda a recompensa que terá. Afinal, é essa a recompensa que busca.

Depois de mostrar o que não devemos fazer, Jesus descreve a atitude correta ao servirmos a Deus — neste caso, ao ajudarmos os necessitados. “Entretanto, quando você cuidar dos necessitados, que a sua mão esquerda não saiba o que está fazendo a mão direita, de forma que você preste ajuda em secreto. E o seu Pai, que vê o que é feito em secreto, o recompensará” (Mateus 6:3–4).

É claro que é impossível impedir que uma das mãos saiba o que a outra está fazendo. Jesus recorre a essa imagem para mostrar que, além de não doarmos em busca do aplauso alheio, também não devemos nos deter no fato de termos doado, parabenizando-nos por isso.

John Stott escreveu sobre o assunto:

A doação cristã deve ser marcada pelo sacrifício pessoal e pela abnegação, não pela autocomplacência. Ao ajudar os necessitados, não devemos buscar nem o elogio dos homens nem razões para nos vangloriarmos, mas a aprovação de Deus.3

Embora nossa doação deva ser um ato de misericórdia praticado em obediência ao mandamento de Deus, que reflita Sua natureza e vise à glória dEle, não à nossa, isso não significa que ela não seja recompensada. “E o seu Pai, que vê o que é feito em secreto, o recompensará” (Mateus 6:4).

Quando “praticamos nossas obras de justiça” — fazendo o que nossa fé nos orienta a fazer, fortalecendo nosso espírito por meio da oração, adorando a Deus, permanecendo em Sua Palavra e praticando atos de misericórdia com a atitude correta de coração —, Deus vê e recompensa. Jesus não especifica exatamente quais são as recompensas, mas, ao longo dos Evangelhos, menciona-as repetidas vezes em termos que parecem prometer recompensas muito superiores aos atos que praticamos. “O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!’” (Mateus 25:21). “Então, o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos do meu Pai! Recebam como herança o reino que foi preparado para vocês desde a criação do mundo’” (Mateus 25:34). “Amem, porém, os seus inimigos, façam-lhes o bem e emprestem a eles sem esperar receber nada de volta. Então, a recompensa que terão será grande” (Lucas 6:35).

Independentemente de quais sejam nossas recompensas eternas, quando doamos com os motivos corretos, nossa recompensa está em saber que obedecemos a Deus, que outras pessoas foram beneficiadas pelo que oferecemos — seja tempo, dinheiro ou oração — e que “tudo o que vocês fizeram a algum desses meus pequenos irmãos, a mim o fizeram” (Mateus 25:40).

Em seguida, Jesus apresentou um ensinamento semelhante sobre a oração: “Quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de ficar orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros. Em verdade lhes digo que eles já receberam a sua plena recompensa” (Mateus 6:5).

As orações que as pessoas faziam “em pé nas sinagogas e nas esquinas” eram as orações costumeiras recitadas pelos judeus praticantes três vezes por dia. Essas orações eram feitas ao se levantar, no horário do sacrifício vespertino no templo (por volta das 15 horas) e antes de dormir. Onde quer que a pessoa estivesse no horário dessas orações, deveria parar e orar.

Jesus não condenava essas orações nem mesmo a oração em público. Referia-se àqueles que organizavam intencionalmente seus horários para que, às 15 horas, estivessem em lugares de destaque, onde seriam vistos orando. Assim como no caso dos que faziam questão de dar esmolas para serem vistos, Ele condenou aqueles que oravam como forma de autopromoção.

Não há nada de errado em orar em público, como acontece regularmente em igrejas, grupos de estudo bíblico, reuniões de oração etc. Aliás, podemos orar a qualquer hora e em qualquer lugar. Somos instruídos: “Orem constantemente” (1 Tessalonicenses 5:17). Aqui, Jesus Se concentra na intenção ou motivação e, especificamente, procura expor a motivação errada — “a fim de serem vistos pelos outros”. A exemplo do que ensinou sobre doar para ser visto pelos outros, Jesus afirma que os que oram com esse propósito já receberam toda a sua recompensa: a atenção e o reconhecimento das outras pessoas. Deus, porém, não lhes dará outra recompensa por essas orações.

Em seguida, Jesus descreveu a maneira correta de orar: “Mas, quando você orar, vá para o seu quarto, feche a porta e ore ao seu Pai, que está em secreto. Então, o seu Pai, que vê em secreto, o recompensará” (Mateus 6:6).

A imagem usada por Jesus retrata alguém a sós com Deus. Lemos que Jesus muitas vezes reservava tempo para orar a sós com Seu Pai (Lucas 5:16; Marcos 1:35). Naturalmente, Jesus também orava em público, assim como Seus discípulos, o que mostra que Ele não condenava a oração pública, mas a motivação errada de buscar glória ou atenção para si ao orar.

Os que entram em comunhão com Deus, O buscam sinceramente e se colocam em Sua presença em oração com os motivos corretos recebem a promessa de uma recompensa de Deus, que vê e ouve sua oração feita em secreto. Jesus estava falando sobre nossa motivação. Nossa motivação deve ser agradar a Deus e desejar fazer essas coisas com um coração puro, que busca intimidade e comunhão com o Senhor. Essa é a atitude que Ele abençoa.

Como cristãos, temos um relacionamento com Deus e desejamos fazer o que Ele nos diz nas Escrituras, aquilo em que Ele Se agrada: adorar, orar, ser generosos, amar os outros e cultivar nosso relacionamento com Ele. Quando feitas de coração, por amor ao Senhor e para Sua glória, essas ações produzem transformação interior, crescimento espiritual e maturidade.

Quando praticamos nossa fé movidos pelo desejo de amar e agradar a Deus e de nos tornar mais semelhantes a Ele, refletiremos Sua luz, e as pessoas verão o fruto de uma vida dedicada a Ele, uma vida que O glorifica. Que cada um de nós viva sua fé com a motivação correta e, assim, seja recompensado por nosso Pai, que vê em secreto (Mateus 6:4).

Publicado originalmente em junho de 2016. Adaptado e republicado em setembro de 2026.


1 R. T. France, The Gospel of Matthew (Grand Rapids: Eerdmans, 2007), 234.

2 France, The Gospel of Matthew, 235.

3 John R. W. Stott, The Message of the Sermon on the Mount (Downers Grove: InterVarsity Press, 1978), 130–31.

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