A Parábola do Servo Obediente

Agosto 3, 2026

Por Peter Amsterdam

[The Parable of the Obedient Servant]

No Evangelho de Lucas, encontramos várias parábolas que começam com uma pergunta cuja resposta é óbvia. Por exemplo, Jesus perguntou: “Qual de vocês que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma, não deixa as noventa e nove no campo e vai atrás da ovelha perdida, até encontrá-la?” (Lucas 15:4). Em outra passagem, lemos: “Qual de vocês, se quiser construir uma torre, não senta primeiro para calcular o preço?” (Lucas 14:28).

Outras parábolas começam com uma pergunta à qual todos responderiam negativamente. Por exemplo: “Qual pai, do meio de vocês, se o filho pedir um peixe, lhe dará, em lugar disso, uma cobra?” (Lucas 11:11).

A parábola do servo obediente começa não apenas com uma pergunta, mas com três — duas das quais suscitam uma resposta negativa, enquanto a outra receberia uma resposta positiva.

“Qual de vocês, tendo um servo que esteja arando ou cuidando das ovelhas, lhe dirá, quando ele chegar do campo: ‘Venha agora e sente-se para comer’? Ao contrário, não dirá: ‘Prepare o meu jantar, apronte-se e sirva-me enquanto como e bebo; depois disso, você pode comer e beber’?

Será que ele agradecerá ao servo por ter feito o que lhe foi ordenado? Assim também vocês, quando tiverem feito tudo o que for ordenado, devem dizer: ‘Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever’” (Lucas 17:7–10).

Nessa parábola, Jesus fala de um servo, termo que em algumas traduções da Bíblia é vertido como escravo. Isso ocorre porque a palavra grega doulos pode ser traduzida como servo, servo por obrigação1 e escravo. Na época de Jesus, a escravidão era comum em todo o Império Romano. Estima-se que entre vinte e trinta por cento da população do império fosse composta de escravos. O fato de Jesus ter usado o exemplo de um servo ou escravizado não significa que Ele aprovasse a escravidão. Ele recorreu à figura de um servo/escravizado para transmitir a mensagem da parábola, por ser algo comum e um conceito que as pessoas certamente compreenderiam.

Talvez tenhamos um vislumbre da atitude de Jesus em relação à escravidão em Seu chamado para que Seus seguidores perdoassem as dívidas dos outros, o que teria minado a base da escravidão por dívida (Mateus 6:12 – NVI 2011). As Escrituras também nos dizem que Jesus, “apesar de ser Deus, não considerou que a sua igualdade com Deus era algo que deveria ser usado como vantagem; antes, esvaziou a si mesmo, assumindo a forma de servo” (Filipenses 2:6–7). A palavra traduzida aqui como servo também é doulos.

A escravidão na época de Jesus não tinha relação com raça, como ocorreu no colonialismo a partir do século XVII. No Império Romano, acreditava-se que a liberdade de alguns só era possível porque outros eram escravizados. As ideias de que a liberdade era um direito de todos e de que a escravidão era um mal teriam sido muito estranhas naquele contexto. A maioria dos escravizados daquela época provinha do lado derrotado nas batalhas, assim como seus filhos nascidos durante o período de cativeiro.

Algumas pessoas também se vendiam para escapar da pobreza ou pagar dívidas, enquanto outras faziam isso para exercer determinadas funções. Às vezes, os escravizados controlavam bens e possuíam seus próprios escravos. Não era incomum que fossem libertados ou comprassem a própria liberdade em algum momento. Alguns escravos eram instruídos, e muitos exerciam funções de confiança e de grande responsabilidade. Alguns recebiam treinamento e atuavam como médicos, arquitetos, artesãos, comerciantes, cozinheiros, barbeiros e artistas. Outros administravam os negócios de seus senhores e eram considerados integrantes da casa de seus senhores.

Na cultura daquela época, muitas pessoas encontravam sentido e honra pessoal, bem como segurança econômica e alimentar, ao servir alguém de posição social e econômica mais elevada e fazer parte de sua casa. Embora não fosse sempre o caso, não era incomum. Contudo, independentemente das circunstâncias, os escravizados dos dias de Jesus eram escravizados. Não tinham liberdade.2

Todos os que ouviam Jesus responderiam negativamente à pergunta inicial — se alguém que tivesse um servo arando ou cuidando das ovelhas o convidaria a sentar-se à mesa ao voltar do campo —, pois ninguém sequer cogitaria fazer isso. Naqueles dias, os papéis tradicionais de senhor e servo eram bem definidos, e permitir algo assim implicaria que o servo tinha a condição de hóspede de honra ou era igual ao senhor. Começar a parábola dessa forma certamente teria despertado a curiosidade dos ouvintes.

Jesus então faz a segunda pergunta: “Ao contrário, não dirá: ‘Prepare o meu jantar, apronte-se e sirva-me enquanto como e bebo; depois disso, você pode comer e beber’?” (Lucas 17:8). Embora nos pareça bastante duro que alguém, depois de um dia de trabalho no campo, ainda tivesse de preparar uma refeição, servir o senhor e só então pudesse comer, no mundo antigo isso era considerado normal.

No contexto da época, ninguém que ouvisse essa parábola esperaria que um servo recebesse tratamento especial por cumprir seus deveres. Ele simplesmente cumpria a sua função. O senhor não ficava em dívida com o servo por ele cuidar das ovelhas ou arar o campo, e ninguém esperaria que o servo recebesse privilégios simplesmente por fazer o seu trabalho.

Diante da terceira pergunta — “Será que ele agradecerá ao servo por ter feito o que lhe foi ordenado?” (Lucas 17:9) —, os ouvintes novamente responderiam: “É claro que não.” A palavra grega traduzida como “agradecerá” é charis, geralmente traduzida no Novo Testamento como “graça”. No entanto, no Evangelho de Lucas, ela também é usada com o sentido de crédito ou favor. Portanto, a pergunta é: o senhor reconhece o mérito ou concede alguma recompensa ao servo por fazer o que lhe foi ordenado?

Kenneth Bailey explica da seguinte maneira:

O senhor pode muito bem expressar apreço ao servo no fim de um dia de trabalho com uma palavra amigável de agradecimento. A questão, porém, é muito mais séria. O senhor fica em dívida com seu servo quando suas ordens são cumpridas? Essa é a pergunta que exige uma resposta enfaticamente negativa na parábola.3

Nesse ponto, Jesus dirigiu-Se aos ouvintes — que, no contexto do Evangelho de Lucas, eram Seus discípulos — e disse: “Assim também vocês, quando tiverem feito tudo o que for ordenado, devem dizer: ‘Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever’” (Lucas 17:10).

Aqui, a expressão “servos inúteis” — ou, como aparece em outras traduções, “servos sem proveito” ou “empregados que não valem nada” — também pode ser traduzida como “sem necessidade”. Em outras palavras, Jesus está afirmando que os servos ou discípulos que fazem o que lhes foi ordenado não têm nada a reivindicar de seu senhor, pois ele não lhes deve nada.

Aplicada aos discípulos, a mensagem era que aqueles que servem a Deus não fazem dEle seu devedor. Deus não fica em dívida com aqueles que O servem. Deus não fica obrigado para com aqueles que O servem. Deus não nos deve nada, ao passo que nós Lhe devemos tudo, inclusive a própria vida. Como Paulo escreveu: “O que você tem que não tenha recebido?” (1 Coríntios 4:7). Isso não significa que Deus não recompense aqueles que O amam e servem, mas que nosso relacionamento com Ele não é uma relação na qual ganhamos, merecemos ou negociamos uma recompensa. O discípulo é um servo que serve ao Senhor movido por amor, adoração e fidelidade a Ele.

O apóstolo Paulo referiu-se a si mesmo como doulos, termo que pode ser traduzido como servo, servo por obrigação ou escravo: “Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus” (Romanos 1:1). (Veja também Tito 1:1.) Isso significa que ele entendia seu relacionamento com o Senhor como o de alguém que trabalha por amor e dedicação para cumprir seu chamado, e não em busca de ganho financeiro ou de qualquer outra espécie. Ele serve com uma sensação de plena segurança, sabendo que seu senhor cuidará dele.

Nossa salvação é uma dádiva de Deus; não trabalhamos para obtê-la nem a conquistamos. Nosso serviço a Ele nasce da gratidão e do amor, bem como do compromisso e da fidelidade Àquele que nos redimiu. Quando fazemos o que Ele nos ordenou, entendemos que Ele não nos “deve” nada. Não devemos manter um registro mental de tudo o que fizemos pelo Senhor, esperando que, por causa disso, Deus fique em dívida conosco.

Isso não significa que não haja recompensa para aqueles que servem a Deus, pois Jesus falou muitas vezes sobre recompensas.

“Entretanto, quando você cuidar dos necessitados, que a sua mão esquerda não saiba o que está fazendo a mão direita, de forma que você preste ajuda em secreto. E o seu Pai, que vê o que é feito em secreto, o recompensará. Mas, quando você orar, vá para o seu quarto, feche a porta e ore ao seu Pai, que está em secreto. Então, o seu Pai, que vê em secreto, o recompensará” (Mateus 6:3–4, 6).

“Então, o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos do meu Pai! Recebam como herança o reino que foi preparado para vocês desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’” (Mateus 25:34–36).

Temos a promessa de uma recompensa, mas nosso relacionamento com Deus não se baseia em merecê-la, negociá-la ou conquistá-la por meio do nosso trabalho. Como servos do Senhor, trabalhamos para Ele por amor e cumprimos nosso dever para com Ele por gratidão. O que recebemos de Deus é uma dádiva concedida por Ele, não um pagamento pelos serviços prestados. Nós O servimos porque Ele nos salvou e somos gratos. Nós O servimos porque O amamos. E é justamente porque nosso serviço a Ele é motivado por amor e gratidão, e não pela recompensa, que Ele nos recompensa.

Publicado originalmente em outubro de 2017. Adaptado e republicado em agosto de 2026.


1 Nota do tradutor: O termo inglês *bondservant* não possui equivalente exato e corrente em português. Nesta tradução, foi vertido como “servo por obrigação” para distingui-lo tanto de “servo”, termo mais amplo, quanto de “escravo”. A expressão designa alguém vinculado à obrigação de servir, seja por dívida, por dever de restituição ou por outra forma de sujeição, sem necessariamente corresponder, em todos os contextos, à condição plena de escravo.

2 Pontos extraídos do livro de J. A. Harrill, “Slavery”, em C. A. Evans e S. E. Porter, orgs., Dictionary of New Testament Background (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2000), pp. 1124–1127.

3 Kenneth Bailey, Through Peasant Eyes (Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1980), p. 120.

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