A Parábola do Administrador Desonesto

Junho 22, 2026

Peter Amsterdam

[The Parable of the Unjust Steward]

A parábola sobre o administrador desonesto é a segunda de três parábolas no Evangelho segundo Lucas que tratam da administração de finanças e posses (Lucas 12:16-21) e a do rico e Lázaro (Lucas 16:19-31). A parábola do administrador astuto é considerada uma das de mais difícil compreensão, e é intrigante ver quantas interpretações foram tecidas ao longo dos séculos.

Nesta parábola, que se encontra em Lucas 16:1-13, Jesus contou a história de um administrador ou gerente comercial de um rico proprietário de terras, demitido pelo seu chefe por conta de sua desonestidade. O administrador, então, age em benefício próprio e defrauda novamente seu patrão. Quando este descobre o que aconteceu, elogia o administrador.

Esta parábola poderia dar a impressão de que Jesus está endossando e até elogiando o comportamento pecaminoso do administrador — o que certamente é um tanto desconcertante. Na verdade, no quarto século, o último imperador romano não cristão, conhecido como Juliano, o Apóstata, usou essa parábola para afirmar que Jesus ensinara Seus seguidores a ser mentirosos e ladrões.1

Ao longo dos séculos, surgiram diferentes interpretações dessa parábola, e já se afirmou que ela trata de uma série de temas, incluindo dar esmolas aos pobres, o uso adequado do dinheiro ou uma advertência a Israel.2  Vou destacar a interpretação que me parece oferecer uma explicação precisa da mensagem por trás dessa parábola, baseada principalmente na perspectiva de Kenneth Bailey em seu livro Jesus pela Ótica do Oriente Médio.

Comecemos com o primeiro versículo da parábola, que apresenta os dois principais personagens e prepara o cenário para o que vem a seguir:

O administrador de um homem rico foi acusado de desperdiçar os seus bens (Lucas 16:1).

No desenrolar da história, fica evidente que o homem rico tinha grandes propriedades rurais as quais arrendava para que os outros as cultivassem, e havia contratado um administrador que era responsável por seus negócios. Alguém havia relatado ao rico proprietário de terras que o administrador estava desperdiçando seus bens. A palavra original grega aqui traduzida como desperdiçar foi também usada na parábola do Filho Pródigo (Lucas 15:11-22), ao falar do filho mais jovem que desperdiçou sua riqueza com prazeres pessoais. O administrador fora acusado de consumir a riqueza do dono das terras.

Então, ele o chamou e lhe perguntou: "Que é isso que estou ouvindo a seu respeito? Preste contas da sua administração, porque você não pode continuar sendo o administrador" (Lucas 16:2).

O homem rico informa ao administrador que outras pessoas o haviam falado de sua má administração — presumivelmente, que ele vinha se aproveitando de sua posição para forrar os próprios bolsos à custa do proprietário.

No primeiro século, os administradores na Palestina, assim como em outras partes do mundo antigo, tinham plena autoridade para conduzir negócios em nome dos proprietários. Qualquer contrato firmado pelo administrador em nome do proprietário era juridicamente vinculante para este. Por isso, antes de designar alguém para administrar seus negócios, sua casa e seus assuntos financeiros, o proprietário precisava confiar plenamente nessa pessoa. Aparentemente, o homem rico havia depositado esse grau de confiança no administrador, mas acabou sendo traído.

Quando confrontado pelo proprietário, o administrador nada disse. Não se defendeu. Não perguntou quem eram seus acusadores. Não negou que havia sido desonesto. Seu silêncio foi interpretado como confissão de culpa. O proprietário então o demite no ato e o instrui para entregar os livros contábeis. A partir daquele momento, ele perdeu a autoridade legal para fazer negócios em nome do proprietário.

Nos dois versículos seguintes, conhecemos os pensamentos do administrador enquanto vai reunir os livros contábeis e avalia suas futuras possibilidades de trabalho.

O administrador disse a si mesmo: "O meu senhor está me despedindo. Que farei? Não tenho força para cultivar a terra e sinto vergonha de mendigar” (Lucas 16:3).

O futuro lhe parecia sombrio. Sua demissão logo se tornaria conhecida por todos no vilarejo. Ele não era forte o bastante para trabalhar nos campos como lavrador ou diarista e tinha vergonha de mendigar. Além de nos mostrar que o administrador reconhece que suas perspectivas não são boas, o texto revela o que ele pensa fazer a respeito.

“Já sei o que vou fazer, para que, quando perder o meu emprego aqui, as pessoas me recebam em sua casa” (Lucas 16:4).

Ele concebe um plano para que os outros o ‘recebam em sua casa’, uma expressão idiomática que significa conseguir emprego com outro proprietário de terras. Seu plano abrirá a possibilidade de conseguir outro emprego, apesar de as pessoas saberem que ele foi desonesto e, por isso, demitido. Em seguida, começa a pôr seu plano em prática.

Então, chamou cada um dos devedores do seu senhor. Perguntou ao primeiro: "Quanto você deve ao meu senhor?". "Cem batos de azeite", respondeu ele. ― O administrador lhe disse: "Tome a sua conta, sente‑se depressa e escreva cinquenta".  ― A seguir, perguntou ao segundo: "E você, quanto deve?". "Cem coros de trigo", respondeu. ― Ele lhe disse: "Tome a sua conta e escreva oitenta" (Lucas 16:5-7).

O fato de o administrador convocar individualmente os devedores do seu senhor revela ao ouvinte da história que, naquele momento, as únicas pessoas que sabiam da demissão eram ele próprio e o proprietário. Aparentemente, nem mesmo os servos do proprietário haviam sido informados, pois, se soubessem que ele já não era mais o administrador, não teriam obedecido às suas ordens.

Os devedores tampouco sabiam, pois, se soubessem, provavelmente não teriam comparecido a uma reunião privada com ele. Aqueles devedores não eram pobres, mas arrendatários de grandes áreas pertencentes ao homem rico. Um deles arrendara um olival e o outro, um campo de trigo.

Naquela época, as pessoas arrendavam e cultivavam terras, pomares e vinhas, e pagavam ao proprietário uma parte previamente acordada da colheita. Portanto, o dono não tinha de trabalhar na terra, mas recebia uma parte da produção. Um desses homens havia concordado em entregar ao proprietário cem medidas de azeite de oliva da colheita, e o outro, cem medidas de trigo.

A unidade de medida do azeite, correspondente ao hebraico bato, equivalia a aproximadamente 39 litros. Assim, um dos devedores havia se comprometido a pagar cerca de 3.900 litros de azeite de oliva, ou seja, a produção de cerca de 150 oliveiras, cujo valor era de aproximadamente mil denários. Um denário equivalia ao salário de um dia de um trabalhador com baixa qualificação. O outro devedor se comprometera a pagar ao proprietário 27 toneladas de trigo, o equivalente à produção de um campo de cerca de 40 hectares. A sua dívida era de aproximadamente 2.500 denários.

O administrador desonesto reduziu a quantidade de azeite devida em 50 por cento, ou 500 denários, e a quantidade de trigo devida em 20 por cento, também 500 denários. Instruiu cada um deles a reescrever sua conta para que refletissem 500 denários a menos do que era a dívida original, uma quantia considerável! Depois de ter enganado o proprietário para obter vantagem financeira, praticou nova fraude no valor de mil denários, só que, dessa vez, não para obter vantagem financeira. Sua vantagem foi fazer com que aqueles homens o vissem com bons olhos e possivelmente lhe dessem emprego quando descobrissem que ele havia sido demitido.

Os arrendatários ficaram satisfeitos com o proprietário por sua generosidade e com o administrador, a quem talvez atribuíssem o mérito de ter convencido o proprietário a fazer um gesto tão generoso.

De certa forma, o administrador colocou o proprietário contra a parede. Quando descobrisse que o administrador havia alterado os valores devidos, o proprietário teria o direito legal de não reconhecer o desconto e exigir o pagamento integral na época da colheita. Por outro lado, se revogasse as contas alteradas, perderia a boa vontade que acabara de conquistar dos arrendatários e, quando a notícia se espalhasse, provavelmente também dos moradores do vilarejo.

O administrador voltou a lesar o proprietário, mas, em sua astúcia, fez isso de uma forma que o beneficiava e, ao mesmo tempo, beneficiava o proprietário:

O senhor elogiou o administrador desonesto, porque agiu com astúcia (Lucas 16:8).

O texto deixa claro que o administrador era desonesto; portanto, não há razão para concluir que estivesse sendo elogiado por ser bom, justo ou arrependido. O senhor o elogiou por sua astúcia — em outras palavras, por sua esperteza e sagacidade em suas negociações. Ele agiu errado e foi punido com a demissão, mas foi elogiado por ter percebido a natureza e o caráter do proprietário e por seu plano astuto e engenhoso.

As ações do administrador fizeram com que tanto ele quanto o proprietário fossem bem-vistos pelos arrendatários. Muito provavelmente, a comunidade também tomaria conhecimento de que o proprietário havia sido incrivelmente generoso. A história do que o administrador fizera provavelmente acabaria vindo à tona, e os membros da comunidade entenderiam que o proprietário poderia, logo de início, ter punido o administrador e vendido sua família, mas não o fez.

É pouco provável que ele fosse contratado localmente como administrador, devido à sua desonestidade, mas bem poderia conseguir outro emprego por causa de sua astúcia — e essa era a sua meta. Seu plano produziu um resultado favorável para ele e para o proprietário, embora fosse uma vantagem custosa para o homem rico.

Essa parábola provavelmente intrigou seus ouvintes originais, assim como hoje um filme ou livro sobre um ladrão com um plano extremamente engenhoso, elaborado e criativo pode intrigar espectadores ou leitores. Mas eles também teriam entendido que o proprietário era generoso e bondoso.

Concluída a história propriamente dita, Jesus acrescenta uma aplicação:

O senhor elogiou o administrador desonesto, porque agiu com astúcia. Pois os filhos deste mundo são mais astutos no trato uns com os outros do que os filhos da luz. Por isso, eu digo: usem a riqueza deste mundo ímpio para ganhar amigos, de forma que, quando ela acabar, estes os recebam nas moradas eternas (Lucas 16:8,9).

Nesta afirmação difícil de entender, Jesus faz uma comparação entre os filhos deste mundo e os filhos da luz. Os filhos deste mundo lidam com os outros com mais astúcia do que os filhos da luz, pois, como o administrador, sabem como agir dentro do sistema deste mundo. Sabem como fazer bons negócios, ganhar dinheiro, acumular riqueza e ser bem-sucedidos segundo seus caminhos e princípios.

Jesus, porém, diz aos filhos da luz que devem agir sabiamente segundo um conjunto diferente de princípios — os princípios do reino de Deus, fundamentados na natureza amorosa, generosa e misericordiosa de Deus. Devem agir de acordo com a vontade de Deus e tratar os outros com amor e generosidade, a fim de serem ricos para com Deus e acumularem tesouros no céu (Mateus 6:19-21).

Os crentes são ensinados a usar o dinheiro e as riquezas deste mundo para fazer amigos neste mundo. Em outras palavras, devem usar seu dinheiro para fazer o bem, ser generosos, compartilhar, dar aos necessitados e ajudar quem puderem.

Chegará o tempo em que o dinheiro já não terá valor nem importância, também chegará o tempo em que você passará deste mundo para o próximo. Se você viver de acordo com os princípios do reino de Deus, ao chegar ao céu, será recebido nas moradas eternas por aqueles que ajudou e que partiram antes de você.

Nesta parábola, Jesus ensina algo sobre a natureza de Deus, que, como o proprietário de terras da história, é misericordioso e generoso. Salienta que os crentes devem aprender algo com o administrador desonesto. Embora o que o administrador desonesto fez estivesse claramente errado, ele ao menos compreendeu a natureza do proprietário e agiu com base nesse conhecimento. Quanto mais nós, como cristãos, deveríamos compreender a natureza amorosa e generosa de Deus e viver com grande fé em Seu amor, Sua misericórdia e Sua generosidade, ao mesmo tempo que imitamos Seus atributos, sendo generosos e perdoadores para com os outros.

Todos precisamos de dinheiro para dar conta das despesas e cuidar de nós mesmos e de nossas famílias, mas usar parte do que recebemos como bênção para ajudar os outros é uma forma de criar laços de amizade com eles, mostrando-lhes que Deus os ama e deseja abençoá-los. Ao compartilharmos nossos recursos, espelhamos a generosidade de Deus. Assim, não apenas ajudamos os outros, mas também acumulamos tesouros no céu.

Talvez não tenhamos muitas riquezas deste mundo para compartilhar com os outros, mas temos abundantes riquezas a compartilhar, muito mais valiosas do que dinheiro. Temos a verdade da Palavra de Deus, o amor de Deus e o conhecimento de como entrar em um relacionamento de salvação com Ele por meio de Jesus. Talvez neste momento você não esteja em condições de ajudar os outros financeiramente, mas pode lhes oferecer seu tempo, sua ajuda, suas orações, seu consolo e seu amor.

Cada um de nós tem a verdadeira riqueza da justiça — as boas novas da salvação — que podemos compartilhar livremente com os outros. Que possamos compartilhar nossas bênçãos financeiras e espirituais com os necessitados, para que venham a conhecer nosso Deus amoroso e generoso, e Seu maravilhoso Filho, Jesus.

Publicado originalmente em agosto de 2014. Adaptado e republicado em junho de 2026.


1 Kenneth E. Bailey, Jesus Through Middle Eastern Eyes (InterVarsity Press, 2008), 333.

2 Klyne Snodgrass, Stories With Intent (Eerdmans, 2008), 406–409.

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