Discipulado Cristão, 3a. Parte: A Promessa

Maio 25, 2026

Por Peter Amsterdam

[Christian Discipleship, Part 3: The Promise]

Em cada um dos Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), lemos como Jesus desafiou Seus seguidores a tomarem a sua cruz e segui-Lo. No Evangelho segundo Mateus, Ele disse: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.⁵ Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa, a encontrará” (Mateus 16:24-25).1

Hoje, os cristãos às vezes usam a expressão “tomar a própria cruz” em sentido metafórico para enfrentar um desafio por um tempo prolongado, um problema ou um fardo que precisam suportar. É comum ouvir a frase: “Essa é a minha cruz”. No entanto, no contexto do que Jesus estava dizendo aos Seus discípulos, o desafio de “tomar a cruz” e seguir a Ele era uma metáfora impactante: Seus seguidores deveriam estar dispostos a negar-se a si mesmos (às suas próprias vontades), a tomar a sua cruz (a aceitar a vontade de Deus, independentemente do custo) e a seguir a Ele.

Enquanto falava aos discípulos ali presentes, Jesus deixou claro que todo aquele que O segue deve tomar a sua cruz e colocar Deus até mesmo acima da própria vida — uma exigência dirigida aos discípulos de todos os tempos. Jesus não omitiu a possibilidade de que Seus seguidores fossem rejeitados e martirizados, como aconteceu com muitos dos primeiros discípulos. Apesar de a maioria de nós não estar em situações em que teremos de morrer pela nossa fé, existem lugares onde cristãos convivem com essa possibilidade, como tem acontecido ao longo da história.

Dado que a maioria dos cristãos não enfrenta ameaça à vida nem sofre perdas significativas ao seguir a Jesus, como devem aplicar o princípio de negar a si mesmos e tomar a sua cruz? Encontramos orientação sobre isso no versículo citado acima, em que Jesus fala sobre negar a si mesmo e tomar a cruz para segui-Lo.

Negar-se a si mesmo pode ser interpretado como deixar de lado desejos, ambições e objetivos pessoais, dispondo-nos a buscar a orientação de Deus para a nossa vida e a seguir a Sua vontade acima da nossa. Isso não significa que o Senhor jamais nos guiará a perseguir nossas ambições e metas. Se estivermos constantemente buscando a Sua orientação, é muito provável que a vontade de Deus e nossos desejos estejam alinhados. O conceito é que, aqueles que seguem o Senhor precisam buscar a Sua orientação e priorizar o que Deus deseja, para que, se em algum momento Ele nos guiar por um caminho que não nos agrade, estaremos dispostos a “negar a nós mesmos” para segui-lO.

Encontramos orientação adicional sobre esse conceito nos escritos do apóstolo Paulo. Ele fala de “fazer morrer” os nossos pecados, dizendo que os cristãos devem pôr de lado as coisas erradas e pecaminosas que talvez desejemos fazer, e escolher fazer o que está certo aos olhos de Deus. “Façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês” (Colossenses 3:5). “Pois se vocês viverem de acordo com a carne, morrerão; mas, se pelo Espírito fizerem morrer os atos do corpo, viverão” (Romanos 8:13).

O chamado a ser seguidor de Jesus implica uma mudança total, que envolve realinharmos nossas prioridades e colocarmos Deus em primeiro lugar. Isso não significa que não teremos outras lealdades, mas nossa lealdade a Deus vem em primeiro lugar – antes dos nossos desejos e vontades, das nossas posses, dos nossos entes queridos e até da nossa própria vida. Não é um caminho fácil, mas Jesus disse que é o caminho que leva à vida (Mateus 7:13-14).

Jesus nos revelou o segredo para cumprirmos o compromisso do discipulado. Como somos seres humanos falhos, não conseguimos atender às exigências do discipulado o tempo todo. Se tentarmos fazer isso com as nossas próprias forças, podemos acabar como os fariseus, a quem Jesus frequentemente repreendia por perderem de vista o que realmente era importante. Eles enfatizavam demais a observância das regras, em detrimento do relacionamento com Deus.

Jesus ensinou que nosso compromisso deve ser com Deus acima de tudo, no entanto, Ele não queria que esse princípio se tornasse apenas uma observância vazia de regras. Seus discípulos nasceram de novo por meio da salvação e foram cheios do Espírito Santo, que os capacitou a cumprir o chamado. “Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17). “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20).

O Espírito Santo que habita em nós é uma manifestação de que estamos em Cristo. “Deste modo sabemos que ele permanece em nós: pelo Espírito que nos deu" (1 João 3:24). Paulo escreveu: “Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus?” (1 Coríntios 6:19). A capacidade e a graça para viver o discipulado não vêm apenas do nosso desejo e esforços para ter uma vida piedosa, mas sim do poder de Deus por meio do Espírito Santo.

No Evangelho segundo João, lemos que, na véspera da Sua crucificação, Jesus teve uma longa conversa com Seus discípulos. Parte do Seu discurso tratou da ajuda que Ele lhes enviaria depois que partisse. Recapitular isso nos ajuda a entender o papel do Espírito de Deus na vida dos primeiros discípulos e de todos os demais desde então.

Nessa ocasião, Jesus compartilhava a última refeição com Seus discípulos antes de ser preso e, posteriormente, executado. Depois que Judas saiu para consumar sua traição, Jesus falou aos discípulos sobre o Espírito Santo que Ele enviaria para capacitá-los e ajudá-los depois que Ele partisse. “E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Conselheiro para estar com vocês para sempre, o Espírito da verdade. O mundo não pode recebê-lo, porque não o vê nem o conhece. Mas vocês o conhecem, pois ele vive com vocês e estará em vocês” (João 14:16–17).

No Evangelho segundo Lucas, lemos que Jesus instruiu os discípulos a não saírem de Jerusalém: “Eu lhes envio a promessa de meu Pai; mas fiquem na cidade até serem revestidos do poder do alto" (Lucas 24:49). Nos Atos dos Apóstolos, lemos que Jesus disse aos discípulos: “Esperem pela promessa de meu Pai”, e “vocês serão batizados com o Espírito Santo” (Atos 1:4,5).

Jesus continuou: “Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra" (Atos 1:8). Em Atos 2, vemos o cumprimento dessa promessa no dia de Pentecostes, quando "todos ficaram cheios do Espírito Santo" (Atos 2:1–4 ).

O Espírito Santo foi enviado após a morte de Jesus e esteve com os discípulos o tempo todo. O Espírito os encheu e capacitou, e continua fazendo isso com os discípulos desde então. Certamente, Sua presença lhes deu a força de que precisavam para cumprir seu chamado e viver o discipulado. Ainda que o Espírito Santo não estivesse fisicamente presente como Jesus o estava, Ele habitava em cada discípulo.

Jesus enfatizou que só foi capaz de realizar Suas obras pelo poder do Pai e porque o Pai habitava nEle. “Você não crê que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu lhes digo não são apenas minhas. Pelo contrário, o Pai, que vive em mim, está realizando a sua obra" (João 14:10). Então explicou aos discípulos que pediria ao Pai que lhes enviasse o “Consolador”, o Espírito Santo, que estaria com eles.

A palavra grega paráclito é traduzida como Conselheiro, Consolador, Ajudador ou Advogado (dependendo da versão da Bíblia). Refere-se a alguém chamado para acompanhar outra pessoa e auxiliá-la. Também é usada para se referir a alguém que defende a causa de outrem perante um juiz, como um advogado de defesa ou um intercessor. No sentido mais amplo, significa um ajudante, alguém que auxilia. Portanto, podemos entender que o conceito de paráclito, em relação ao Espírito Santo, significa um ajudador ou defensor que auxilia os que creem.

É interessante notar que em outra passagem no Novo Testamento, Jesus também é chamado de paráclito — defensor — em favor dos discípulos: “Meus filhinhos, escrevo estas coisas a vocês para que não pequem. Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor [um paráclito] junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1 João 2:1). Jesus também Se referiu indiretamente a Si mesmo como um paráclito quando disse: “E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Conselheiro”. Jesus, que foi o primeiro defensor, disse aos Seus discípulos que estaria com eles “apenas mais um pouco” (João 13:33). No entanto, Ele prometeu que enviaria outro auxiliador, a quem descreveu como “o Espírito da verdade”, que habitaria neles (João 14:16-17).

Depois que voltou ao Pai, Jesus enviou o Espírito Santo aos que O seguiram durante Sua vida na Terra, e a todos que se tornariam Seus seguidores. O Espírito Santo, que Jesus enviou da parte do Pai, faz por nós o mesmo que Jesus fez para Seus discípulos: ensina, corrige, consola, encoraja, guia e fortalece.

Depois que Jesus subiu ao céu e foi glorificado, Seus discípulos passaram a ter a Sua presença continuamente, por meio do Espírito Santo. A presença do Espírito Santo em nós nos capacita a sermos verdadeiros discípulos, a vivermos de acordo com os ensinamentos de Jesus e a amá-lo acima de tudo. Não é algo que consigamos produzir por nós mesmos, mas algo que fazemos pelo poder do Espírito de Deus, que Jesus nos enviou da parte de Seu Pai.

O livro dos Atos relata que alguns foram cheios ou batizados pelo Espírito Santo no momento da conversão, enquanto outros receberam essa plenitude mais tarde. Qualquer que seja o caso, o Espírito Santo passou a habitar neles. Em todo o Novo Testamento vemos referências à influência do Espírito Santo na vida dos cristãos. Nós recebemos o Espírito de Deus (1 Coríntios 2:12), somos guiados pelo Espírito (Gálatas 5:18), Ele nos ajuda em nossa fraqueza (Romanos 8:26), e habita em nós (2 Timóteo 1:14).

Nós não apenas recebemos a maravilhosa dádiva da presença de Deus conosco, mas também a Sua Palavra que nos guia. Temos a promessa de Suas recompensas por tudo o que entregamos de nós mesmos e da nossa vida por amor ao Seu nome, e pelo amor que compartilhamos com os outros e compartilhamos o Seu amor com os outros. Podemos ter certeza de que, quando somos fiéis em amar e seguir Jesus, investindo os talentos que Ele nos deu e fazendo tudo ao nosso alcance para sermos testemunhas, um dia O ouviremos dizer: “Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!” (Mateus 25:21).

Publicado originalmente em outubro de 2017. Adaptado e republicado em maio de 2026.


1 Para os relatos de Marcos e Lucas, ver Marcos 8:34–37, Lucas 9:23–24 e Lucas 14:27.

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